Viagem ao centro da Bíblia
Sunday, August 19, 2018.

Muita da história de Marrocos assenta num povo conhecido como Povo Berbere, um povo que conta a história do seu país na primeira pessoa.

O carro teve que ficar estacionado na entrada da aldeia Tafza Ourika onde as crianças apareceram para nos acompanhar até ao destino. Esta aldeia, situa-se no caminho que estávamos a levar para encontrar uma cidadã portuguesa a que respeita também um hotel nas montanhas. Foi apenas um pequeno desvio para uma viagem como quem entra num livro de História.

O esgoto a céu aberto e o caminho íngreme, fez-nos chegar ao museu. Berber Heritage Museum que foi fundado por um francês que também ele, administra o Museu de Fotografia em Marraquexe.

Museu da herança Berbere na aldeia de Tafza Ourika (Marraquexe – Marrocos)

Na porta de uma casa antiga mas reformada, fomos recebidos por Khalide, o curador do museu que nos ensinou como saber ler os desenhos de uma carpete.

Depois de breves explicações, Khalid apontava mais uma carpete e perguntava:

– E esta? É feminina ou masculina? Onde está a mulher grávida? E continuava a desfiar as razões pelas quais as mães oferecem carpetes ora aos filhos, ora ás filhas por diferentes razões.

E vimos as ferramentas ancestrais que o pai de Khalid lhe identificou antes de morrar aos 117 anos.

Khalid não sabe que idade tem. Mostra o seu cartão de identificação e lá vai explicando que todos os cartões que têm como data de nascimento o primeiro dia do mês de Janeiro não foram registados quando nasceram. Era o caso.

Tapeçaria berbere

Depois de nos mostrar as carpetes e as ferramentas, Khalid falou-nos da aldeia e do esforço que faz em benefício da sua comunidade.

– Agora já temos uma escola e um local onde as crianças podem dormir e aprender – diz-nos o homem que tem apenas a instrução primária e comunica num inglês de exceção.

Passamos a conhecer as partes íntimas da casa.

– A casa tem duas portas de entrada. Quando recebemos a visita ela tem um período de carência de três dias neste espaço (e mostrava o espaço com as carpetes e as almofadas onde todos se sentam). Se no final desses três dias a visita for merecedora, então abrimos a porta seguinte. Caso contrário a visita é convidada a retirar-se.

Estavamos a conhecer a casa do antigo chefe da aldeia Tafza Ourika.

Com Khalid, o responsável pelo museu

Já no final, ainda fomos convidados para um chá em casa de Khalid para conhecer a mãe e a família. Infelizmente, o tempo não o permitiu.

Despedimo-nos de Khalid na certeza de termos conhecido alguém extraordinário. Seja pelo serviço que presta à sua Comunidade Berbere que tanta magia dá a Marrocos, seja pelo seu esforço em manter vivas as tradições do seu povo.

– Vês aquela montanha ali? – perguntava enquanto apontava uma espécie de monte alentejano.

– É o nosso cemitério. Cada árvore que vens representa alguém da nossa aldeia que ali está sepultado.

À volta, o ambiente era secularmente velho. Tudo parecia tirado de um livro. Ou de uma Bíblia com as imagens a fazer-nos esquecer as sirenes de Londres.

Estava na altura de ir embora. Tinhamos mais portugueses para descobrir em Marrakexe.

Alcino G. Francisco

PN

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