Uma lente para a poesia
Tuesday, June 18, 2019.

Marta Sales é uma brasileira radicada no Porto há mais de vinte anos. Para lá da sua dedicação à modalidade desportiva da Capoeira, Marta Sales é uma mulher que desenvolveu especial sensibilidade no mundo das artes. Organizadora de eventos musicais, a escritora é também uma preocupada em fomentar a amizade que distribui através de um programa de rádio que emite todos os sábados em FM e através do online na internet.

Em 2016, publicou um livro chamado “Lente da poesia” que é essencialmente e como o próprio livro indica, um livro de poemas que são denunciadamente autobiográficos. Embora recentemente publicado, a escrita anuncia uma história de percursos vividos anteriormente e em sintonias diversas que se arrastam desde a juventude, sem percebermos no entanto se a escritora se afastou de si mesmo ou se disfarçadamente permanece a mesma.

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Mais madura no trato pessoal, Marta Sales não esconde contudo a inspiração que a levou a publicar este livro. De forma rasgada e assumida, Marta Sales pontua a sua escrita pelas diversas fases do amor e da desilusão numa perseguição infinita da busca por uma realização que nunca atinge por ser imensa e em permanente crescimento.

Neste livro, a escritora descreve de forma sublime histórias de amor e paixão vividas num coração de mulher apaixonada, por vezes traída, por vezes exausta e quase sempre teimosa. Marta Sales, procura o que todo o Ser Humano procura, a maioria sem êxito, muitos de forma intercalada e raramente de forma honesta. Para ela, de forma permanente.

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A escrita, plena de sensualidade desafia a imaginação do leitor para leitos de sexo e paixão com um quase infindável amor por um desejo que muda de posição mas que nunca desiste de existir. A família, os amigos e até os inimigos, os valores materiais e os imateriais, o Brasil com a sua cidade Natal da Baia, o Porto, cidade que adoptou, as saudades de coisas, pessoas e lugares, tudo lhe serve para dar aso a rimas muitas vezes e outras nem por isso sem nunca deixar o leitor escapar para o que não escreveu.

Filosófico e ao mesmo tempo sociológico, o “Lente da poesia” é um livro para ser lido espaçadamente para se perceber quando cada uma das coisas que está presente ou ausente e quem for capaz de o ler nessa calma imensa de um tempo sem prazo, pode conhecer a escritora sem nunca a ter visto. É nessa escrita que Marta Sales se dá e entrega sem nunca se render num circuito de contradições de uma mulher que ora está apaixonada, ora traída e revoltada, ora traída e submissa na invenção de muitas mulheres dentro de uma só.

Para lá de si mesma, tenta impossíveis de como perceber o homem como se o contrário fosse verdadeiro e não apenas complementar. Fala do amor e da sua ausência como um estado de paz agitado sem espaço para beijos, carinhos ou desaforos. Deixa-se doer de paixões incompreendidas para se erguer na vontade de voltar a amar para de novo atravessar desertos e de novo tentar amar. Quiçá a mesma pessoa, quem sabe outra qualquer, talvez ela mesma numa procura que acaba quando se acaba a mulher que sai para voltar a entrar.

Despede-se de si mesma e de outros para reencontrar cada um numa acreditação religiosa e “kármica” para onde ninguém sabe que vai ou quando lá chega. Abstêm-se de julgar outros para se sentar no banco dos réus, ser advogada, escrivã e juíza de si mesmo sem lei que a governe nesse exercício de escrever. Inventa paixões e vive traições enlaçadas em palavras que rimam a procurar explicações que só o tempo lhe dirá não existirem. Por isso crescemos, amadurecemos e envelhecemos.

Marta, define ao longo dos seus poemas a sensação de solidão mesmo que acompanhada. Ora sozinha, ora sozinha acompanhada, ora acompanhada por ambições que a encontram e lhe fogem ao longo do tempo como se cada segundo fosse um bailado perdido no tempo que passa e já passou. Torna-se por isso difícil de descrever o que escreve quando tentamos perceber os estados de alma de uma escrita que se adivinha rebuscada nas oportunidades de um dia cada poema estar acabado e ser de facto um poema que demorou por vezes muito tempo, outras vezes apenas instantes.

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Outro dos amores que revela, é dedicado aos intérpretes cantores que tem acompanhado ao longo da vida na organização dos seus eventos. Por vezes radiante, por vezes cansada, pede entre duas estrofes tempo para mais um poema que acaba por nascer ou não e alguns, talvez tenham apenas sido resgatados do seu espólio de escrita ao longo do tempo.

Zanga-se no suor do sexo e de beijos incontidos a desafiar a imaginação masculina nem sempre sensível ao pronuncio da calma que extasia. Faz as pazes consigo mesma numa pressa louca de ver a vida correr nesse exercício de amar para conseguir viver. Cria hinos à vida quando sente os romances inacabados, sustidos em fios de sonhos que não souberam continuar a viver enquanto Marta Sales continuava a escrever. Incompreendida entre o amor e a paixão, a escritora procura por ela mesma no que foi capaz de sonhar e que não conseguiu inventar para uma tradução fiel e real de desejos. Alguns que morreram mesmo antes de nascer e outros que a continuam a fazer viver.

Umas vezes arrependida, outras repetente, Marta Sales espreguiça o amor na vida e deixa a vida crescer. Incólume, solta as palavras para inventar sensualidades em forma de poesia.

Alcino G. Francisco

“Pela Lenta da poesia” – Geostri Editora – S. Paulo – Brasil

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