Toninho – um cravo de Abril
Saturday, July 4, 2020.

Hoje quero recordar o meu primo Toninho, o herói da minha infância.

Era filho da minha tia Aurora e do meu tio Berto. Viviam na Lomba em Campanhã (Porto) onde nasceram todos os filhos da minha avó.

O Toninho, foi destacado para combater na Guiné e disso não tenho memórias. Tenho as dele que foram sendo repetidas pela família ao longo dos anos.

Lembro-me de um dia, quatro aventureiros terem dedicado às minhas primas em Gaia alguns piropos menos apropriados. Não demorou que a notícia tivesse chegado ao Largo da Alemã onde ainda vive a minha prima Ivone.

Assim que a notícia chegou, o Toninho não esteve de meias modas. Saiu de casa e foi procurar o grupo de aventureiros. Quando os identificou, foi direito a eles e fez cada um correr em diferentes direcções. Tinha nascido o meu Super Homem, Batman e Homem Aranha para o resto da minha vida. Um dia, eu queria ser igual a ele. Olhar para gente que não sabe sê-lo, fechar os punhos e fazer justiça mostrando a coragem sem ter que bater em ninguém. Só pela atitude, o Toninho tinha dado o recado de que os aventureiros sem tento na língua não poderiam falar com as mulheres da família. Registei esse detalhe de protecção à família.

Saídas semanais para Portugal

Algum tempo mais cedo, a família inteira estava reunida na casa da família na Lomba. Uma casa pequena e modesta onde coubemos todos. Podíamos até ser o dobro que a casa continuaria a ser enorme.

A tia Aurora e o tio Berto não cabiam em si de contentes. Tios, tias, primos e primas aguardavam a chegada do Toninho para beijos e abraços. Tínhamos um sobrevivente da guerra. Um dos nossos estava de volta, privilégio que não era comum a todas as famílias que perdiam os seus jovens na guerra.

Foi afinal na Guiné onde Portugal perdeu a maioria dos seus militares e foi também lá que o General António de Spínola e Salgueiro Maia interiorizaram o 25 de Abril que estava longe de acontecer.

Quando o Toninho entrou pela porta, a família inteira correu para beijos e abraços perante o olhar das crianças que miravam o herói da família.

Para todas as crianças, o Toninho tinha trazido uma prenda. A mim, calhou-me uma viola. Instrumento que nunca aprendi a tocar. Confesso que para efeitos musicais, não sei se tenho os dois ouvidos esquerdos ou os dois ouvidos direitos.

Entretanto, Toninho ia mostrando algumas fotografias a preto e branco (estávamos no anos 60) que mostravam imagens que foram vedadas às crianças. Ouvi alguns comentários que prefiro não escrever. As imagens falavam dos horrores da guerra.

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Como todos os primos, os nossos contactos foram-se tornando cada vez mais raros e deixei de ver o Toninho durante alguns anos. Não muitos.

Cresci mais um pouco e tornei-me um jovem vadio. Noites de fado, alterne e tabernas.

Foi em Campanhã, perto da casa do Toninho que um dia o encontrei numa taberna de balcões amarelos com cheiro a vinho e sandes de presunto. Passava já da hora decente para estar em casa. Ele e eu.

  • Que andas aqui a fazer? – Perguntou-me.
  • O mesmo que tu. – Respondi.

Ficamos à conversa a falar da família, das memórias e segredos que por o serem não são aqui falados.

Fiquei a perceber que o Toninho que foi para África, não foi o mesmo que voltou.

A família entregou um herói feliz e recebeu de volta um herói magoado. Sentido. Desiludido com a Humanidade que tentava afogar em balcões de tabernas e memórias contadas nos copos que ia-mos bebendo e nas sandes que ia-mos comendo.

  • Vai para casa. – Disse-me ele na despedida da última vez que estivemos juntos.

Não vou – Dizia eu teimosamente a tentar imitar a sua coragem de àquela hora, também ele estar fora de casa a “lamber” memórias de noites que a nascer nos ajudam a esquecer memórias que hoje me estão a nascer.

O meu Toninho, haveria de partir pouco mais tarde. Dele, construí a imagem que o Toninho começou a morrer na Guiné e veio acabar a função em casa. Não quis levar um tiro sem deixar a mensagem do que viveu e sofreu nas trincheiras militares que devolveram a Portugal e à família um Toninho diferente do que foi enviado.

O meu herói de infância, cheio de coragem e incapaz de matar, veio de um teatro de onde foi obrigado a regressar vivo para me oferecer uma viola. Pronto para morrer.

Quando enviamos um homem para a guerra, nunca recebemos o mesmo homem. Recebemos outro mais atento, mais desiludido, mais honesto, mais pronto para enfrentar a morte.

Onde quer que estejas, como quer que sejas, serás sempre o meu super-herói. O heróis desenhado na minha infância. Hoje, oferece-te um cravo.

Alcino Francisco

PN/Londres

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