Carta pública de despedida
Monday, September 16, 2019.

Querida amiga

Das dezenas de vezes que estivemos juntos, nunca precisamos de grandes palavras embora nunca fosse a nossa especialidade fazer silêncio. Mais do que as palavras, recordo-me de quando falavamos sem que as palavras fossem absolutamente necessárias.

Passei a tarde a revolver o meu espólio fotográfico de ti e não encontrei uma uma única fotografia em que não estejas a rir. Nenhuma imagem, nenhuma memória sem essa tua energia de guerreira, de mulher sem fronteiras e destinos. Apenas força.

Ao longo das últimas horas, muitos têm sido os telefonemas que recebo a perguntar como eu estou ou como me sinto e por cada telefonema que recebo, sou assaltado de memórias dos nossos “carnavais e cowboyadas” como a brincar lhes chamavamos.

Contigo aprendi a coragem e que a vida é mais suave quando temos os melhores amigos. Homenageio o carinho pelos teus cães e gatos encontrados em qualquer lugar a precisar de veterinário e recordo o dia em que fui com a Bela para uma consulta num Algarve quente de emoções e projectos.

Guardo as tuas histórias de vida e o teu respeito pela deontologia profissional. Os sonhos que partilhamos com os amigos. Procuro saber dessa nossa viagem a Marraqueche em Setembro com os amigos que te iriam acompanhar e ao mesmo tempo, esta vontade de saber que existe uma Sarah a “lamber” os restos de ti. Ambas símbolos de coragem, de carinho e de uma paixão comum por um desporto que vos apaixonou a ambas.

Lembro-me das aflições, dos casos de Justiça e que ainda foram alguns e de como nos divertíamos a desafiar o destino de sermos réus de justas causas. As noites no bar do hotel, as paródias, a força do evento seguinte onde sei agora que não estarás. Mas estarás porque te vou levar comigo.

Partiste como viveste, sem ambições de protagonismo, sem permitir que acaba-se o respeito que tinhas por ti e que só assim te era rendido por todos.

Lembro-me das tuas conversas e dos segredos que me contavas de que nunca mais falavamos mesmo entre nós. Lembro-me dessa forma de olhar que só consigo encontrar nas minhas irmãs. E dessa energia no falar que contagiava os ambientes. Guardo de ti essa forma rara de ser humilde e corajosa e da tua honestidade do tamanho dos rios e dos mares.

Hoje, como nunca o fiz, uso o jornal para te escrever pessoalmente e de forma pública para te render os meus aplausos e agradecer o favor de teres sido uma amiga incondicional. Uso o jornal de quem sempre foste amiga porque ele e eu te devemos esse público agradecimento.

Hoje, satisfaço a curiosidade de muitos que nunca foram capazes de entender as razões pelas quais fomos tão próximos.

Recebi as tuas duas últimas fotografias e fiquei a saber por aí que as moscas que esperavam. Recebi a tua última mensagem que me acordou as lágrimas mas nem assim entendi que era uma despedida. Percebi 24 horas depois que foi aquela a forma de me dizeres adeus.

Onde quer que estejas, para onde quer que vás, estarás sempre comigo. Deixo aqui a nossa última aventura. Juntos contra o Mundo.

O beijo do costume.

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