“A inglesa e o Marialva” Clara Macedo Cabral publica novo livro que retrata uma história real
Sunday, October 20, 2019.

CMC (Clara Macedo Cabral), escritora portuguesa a residir em Londres acaba de lançar o seu mais recente título  “A Inglesa e o Marialva”  num registo algo diferente a que nos habituou nos seus trabalhos anteriores. De uma forma absolutamente apaixonante, CMC revela como colidiu com uma fantástica história verdadeira que a levou a uma investigação ao longo de quatro anos (embora com interrupção para publicação de dois outros livros), e que relata a vida fantástica de uma mulher inglesa que apaixonada pelos cavalos enveredou pelo toureio a cavalo em Portugal. Pelo caminho Ginnie (assim se chamava a inglesa), envolve-se numa extraordinária história de amor com Alberto, o seu mestre de montaria.

É na riqueza dos detalhes da investigação e na extraordinária capacidade de escrita que CMC segura o leitor na forma gulosa de ler. Entrevistamos CMC que nos contou como tudo aconteceu. “Estive num evento e conheci o irmão da minha biografada que me disse que teve uma irmã que viveu no meu país, apaixonou-se por um português e foi toureira” – revela CMC. Nos anos 60, tempo da ditadura de Salazar, poucos anos depois do fim da ll Guerra Mundial, “houve uma inglesa que foi para Portugal com o sonho de ser toureira”.

Cabeleireiro NW10

Ao longo do livro, CMC explora de forma brilhante a nomenclatura do mundo dos toiros em Portugal e as suas tradições identificando as famílias tradicionais das ganadarias e coudelarias que alimentam a tradição das touradas em Portugal.

«Ginnie» foi para Portugal depois de uma breve passagem por Espanha para onde foi também perseguir o sonho dos cavalos que ganhou em família já que o próprio pai, era também ele, um apaixonado pela equitação. “Viveu em Portugal de forma muito intensa e este livro é o resultado da investigação que eu fiz, cá e lá para reconstruir esses anos intensos da vida desta inglesa em Portugal” – revela CMC.

Ao longo do livro, CMC explora as diferenças culturais de uma Inglaterra que estava abraçada a si mesma a «lamber as feridas» da guerra mas onde as mulheres ganharam um espaço na vida social que contrastava com a submissão feminina vivida na época da guerra colonial que Portugal travava na então África Portuguesa. «Ginnie», imigrante inglesa em Portugal, teve que se bater pelos seus sonhos de tourear num país onde as mulheres eram ainda castradas da sua afirmação fora da família. E CMC não se faz rogada a explorar e a revelar em detalhe as agruras de quem migra de uma nação em crescimento e desenvolvimento para outra nação parada no tempo.

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Para esta obra que tem o seu início 60 anos, CMC procurou as fontes que lhe poderiam fornecer a informação. “Muitas das testemunhas já tinham morrido. Ela já tinha morrido quando eu me comecei a interessar por esta história. Entrevistei o viúvo, os dois filhos, uma irmã, o irmão que primeiramente me falou da história e depois em Portugal, entrevistei os amigos que ela deixou sobretudo no Ribatejo onde ela viveu e que ainda estão vivos e que se lembram dela. É preciso lembrar que ela era uma menina muito bonita, montava muito bem e nesse tempo uma inglesa em Portugal era uma raridade e ela chamou a atenção até pelo que lá fez. Para lá disso, era uma pessoa educada e deixou uma boa impressão nas pessoas e depois de voltar para Inglaterra, continuou a manter o contacto com as pessoas de quem foi próxima escrevendo cartas e estas foram as pessoas que eu entrevistei” – conta CMC.

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Ao longo da investigação, CMC teve ainda acesso a uma mala onde estava o diário de «Ginnie», cartas que foram trocadas pelo mestre por quem ela se apaixonou, posters das várias corridas em que ela entrou “e tudo isso serviu de suporte para escrever este livro. Supri alguns detalhes (pouquíssimos) com a minha história de vida pessoal. Na verdade, eu fiz o percurso inverso dela. Vim para Londres, casei com outro estrangeiro que já cá vivia e ela foi para Portugal e apaixonou-se por um português. Eu sei as dificuldades de uma pessoa que sai do seu país e se integra noutro embora eu tenha presente que as dificuldades que ela enfrentou em Portugal foram infinitamente maiores do que as minhas. Apercebi-me disso à medida em que ia pesquisando esta história – diz CMC.

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«Ginnie», teve que atravessar a Europa no início da década de 60 de carro, chegou a um país que estava mais atrasado em relação ao dela principalmente em relação aos direitos das mulheres que em Inglaterra estavam muito mais emancipadas. “Depois cada vez que ia ou voltava a Inglaterra era difícil. As viagens eram mais caras e mais demoradas do que hoje mas o que eu tenho em comum com esta inglesa é como que um reservatório que me permite preencher as lacunas da história com a minha experiência de vida apesar das diferenças entre a história dela e a minha” – revela CMC.

O que têm em comum a biografada e a escritora? – perguntamos a CMC. “Temos algumas coisas em comum mas também temos as nossas diferenças. «Ginnie» foi para Portugal sem falar a Língua o que não foi o meu caso que vim para Londres falando inglês embora não de forma tão intensa como agora passados estes anos e ambas nos debatemos com as diferenças culturais que separam a cultura inglesa da portuguesa, diferenças por vezes contraditórias ou contundentes. Um português tendencialmente exagera as dificuldades porque passa enquanto um inglês quase as esbate servindo-se do registo auto-depreciativo e irónico. Revejo-me na «Ginnie» principalmente na fase inicial com as dificuldades que ela enfrentou e depois no constante questionar sobre se devemos ou não ficar no país em que estamos. Depois também na fase pós integração já que ela se integrou muito bem. Falou e escreveu português, fez amigos e foi bem-sucedida naquilo que se propôs fazer mas havia sempre esta constante interrogação do regresso” revela CMC.

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A escritora, foi ainda sensível à pressão que esta inglesa em Portugal sofria pela família que esperava vê-la casada numa idade mais jovem do que nos dias actuais pelo que esta obra, se revela também uma viagem ao passado cultural de ambos os países e às suas tradições e contradições. “Ela teve essa pressão que eu não tive e isto contribuiu de algum modo para encurtar o tempo que ela passou em Portugal” – revela a escritora.

«Ginnie» foi a primeira mulher inglesa a tourear a cavalo em Portugal tendo adoptado o nome de Virgínia Montsol e também para a escolha deste nome, existe uma história de contornos verdadeiros, familiares e até mesmo comerciais. Foi no mínimo invulgar o caminho percorrido até chegar ao toureio. “Ela chegou ao toureio pelo seu amor principal aos cavalos, paixão que tinha desde pequena quando montava ainda em casa dos pais em Inglaterra. Ela era boa nas corridas de saltos e obstáculos ainda em Inglaterra embora não tão boa como uma irmã” que rivalizava com a relação paternal. “A sua ida para Portugal, foi uma forma de se assumir e afirmar fora da sombra da irmã e do pai. Foi para Portugal como forma de escapar à sua família e ter um lugar ao sol” – conclui CMC. Recorde-se que nessa época, em Portugal o custo de vida era extraordinariamente barato quando comparado com Inglaterra havendo ainda hoje em Londres portugueses que se recordam de uma relação entre a libra e o escudo de um para trezentos.

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«Ginnie» desiludiu-se em Espanha cujo toureio é mais insistente no toureio a pé e mais distante da sua paixão pelos cavalos. “Ao contrário, em Portugal existe uma relação triangular entre o toureiro, o cavalo e o toiro” – diz CMC.

A inglesa que aprendeu a montar o cavalo Lusitano na moda do bailado e do toureio à portuguesa, acabaria por se envolver numa história de amor intensa e o conjunto das circunstâncias fez de «Ginnie» “uma inglesa que se aportuguesou. Ela aprendeu a montar à portuguesa e conheceu o selim que mais tarde trouxe para Inglaterra. Ela teve muitas dificuldades em montar de uma forma completamente diferente do estilo inglês e acabou por adoptar o cavalo lusitano com o qual não tinha qualquer familiaridade” – revela CMC nesta entrevista.

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Ainda antes de morrer, «Ginnie» viu frustrado o seu sonho de trazer um cavalo Lusitano para Inglaterra, sonho que nunca concretizou tendo morrido de esclerose múltipla num sofrimento físico que se arrastou por cerca de vinte anos até à morte que ocorre aos 67 anos de idade quando já se encontrava reduzida a uma cadeira de rodas. É precisamente com a doença de «Ginnie» que o livro começa fazendo referência ao facto de a cavaleira inglesa mergulhar num dos mais frios rios de Inglaterra para ganhar meia hora de mobilidade. «Ginnie», acabaria por confessar que essa resistência à doença, era uma herança que trazia dos toiros na arena que tudo faziam para permanecer vivos e a cavaleira inglesa, do toureio português, evoca esse exemplo dos toiros para si como forma de combater a doença, sofrendo o frio do rio para ganhar um espaço sem dor. CMC, faz deste exemplo uma das mais emocionantes partes do livro permitindo ao leitor acompanhar a doença, sentir o frio do rio para a seguir experimentar a sensação de mobilidade, e a escritora, transporta o leitor para cada uma destas realidades de uma forma absolutamente magistral. “Ela sujeitava-se ao rigor do frio da água para poder ter meia hora fora da cadeira de rodas e isto mostra a fibra de que ela era feita” – diz nesta entrevista CMC.

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– Esta história de amor entre esta inglesa e Alberto, era possível sem toiros ou cavalos?

– Não – diz CMC entre risos para adiantar – “Todos estes elementos foram necessários. Era preciso um Marialva sedutor para atrair o amor de uma mulher apaixonada sobretudo pelos cavalos. Um toureiro arrasta sempre a atenção de uma mulher”- diz CMC.

A história que se reveste de cavalos, fados e toiros, acaba por arrastar o leitor português para as realidades que bem conhece mas sobretudo, leva a qualquer leitor não português para dentro de um Portugal raro e escondido que mesmo muitos portugueses desconhecem.

CMC que se confessa como não aficionada, revela: “Escrevi este livro como homenagem a esta mulher que foi uma pessoa fenomenal” – para acrescentar “Sim, foi a minha sensibilidade feminina que me levou a escrever este livro. Acho que não teria sido possível a um escritor masculino escrever este livro desta forma e com a mesma empatia com uma personagem como esta” diz CMC.

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CMC admite a sua admiração por «Ginnie» que consegui “cruzar duas culturas e conseguiu afirmar-se num mundo absolutamente elitista, tão fechado e tão masculino, tão difícil de entrar e que ao mesmo tempo exige uma coragem física e emocional inexcedível” e esta, terá sido mais uma das razões pelas quais CMC não resistiu a esta investigação que foi crescendo na medida em que descobria mais detalhes que apaixonaram a escritora pela história e que apaixona o leitor pelo livro.

Se foi difícil para uma mulher inglesa ter entrado no mundo tauromáquico, CMC admite que se fosse uma mulher portuguesa nunca teria conseguido entrar. “Os únicos dois exemplos anteriores que conheço, foram duas mulheres portuguesas que eram companheiras de aconchego de dois cavaleiros” – revela CMC. «Ginnie» terá assim beneficiado de uma “suspensão de uma crítica por ser inglesa a que uma mulher portuguesa não escaparia” – revela a escritora.

O livro, recorda ainda o extracto social dos ganadeiros e dos ambientes familiares onde as mulheres eram talhadas e nascidas para uma educação a caminho do casamento, e da vida familiar recatada que contrasta com a rebeldia de uma inglesa determinada a vencer num mundo exclusivamente masculino, e num país estrangeiro cujas Língua e cultura desconhecia. CMC interpreta esta aventura de vida desvendando a emoção de viver que esta inglesa viveu e que todas as pessoas sonham poder ter. É aqui que a escritora segura o leitor página após página, parágrafo após parágrafo fazendo de cada letra uma forma de mergulhar nessa aventura e na determinação de perseguir sonhos impossíveis que se concretizam e ao mesmo tempo abrir tempo para amar.

“Lavar e escovar cavalos, andar com as unhas sujas era inconcebível para uma mulher do extracto com que ela se dava e isso era-lhe dito muitas vezes pelo mestre dela” – revela CMC no seu livro. A escritora, refere ainda o desconto que a sociedade portuguesa terá concedido pela excentricidade de uma inglesa que teve o atrevimento de sonhar e conseguir ser toureira a cavalo numa época em que socialmente as mulheres eram remetidas ao silêncio da casa e da família.

Terá sido de resto o “marialvismo” que constituiu um dos maiores confrontos culturais de «Ginnie» em Portugal. “Ela não conseguiu compreender o tipo marialva mas ele também não era o típico marialva. O marialva típico teria interesse em casar com uma mulher rica e depois ter várias mulheres embora a palavra marialva na sua raiz etimológica se aplique a um equitador exímio e à maneira de montar à portuguesa. Nenhum deles era típico, ele ou ela” – revela CMC.

“«Ginnie», veio também ela de uma Inglaterra rural, dos cavalos. Nenhum deles era filho da cidade capital dos seus países”.

A entrevista avançou para a história de amor. “Eles tentaram tudo por tudo mas tiveram tudo contra eles” revela CMC que reconhece que a história correu mal. “Ela sabia mais sobre ele (Alberto), do que ele sabia sobre ela” – diz CMC sobre detalhes que se desenrolam ao longo do livro. “Acabariam por ser dificuldades de índole material que os impediram de casar” e terá sido esse o grande detalhe que fez fracassar a continuidade dessa história de amor. Contrariamente ao ditado português que refere o amor e uma cabana, terá sido por razões financeiras que a relação entre ambos não deu o resultado que ambos pretendiam. “Eles eram pioneiros e havia muitas coisas em que estavam à aventura” e é precisamente neste clima de aventura que CMC engole o leitor na sua forma de interpretação escrita e fá-lo de um só fôlego da primeira até à última página.

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A época, retrata ainda um Portugal escondido quando aconteceu a vaga da imigração sobretudo para França, o tempo do «boundeville» que tantos portugueses conheceram fazendo hoje de Paris a segunda cidade da Europa onde se fala português. “Estamos a falar de estradas de poeira, da ditadura política” que de resto é abordada no livro sob a perspectiva dos ingleses amigos que entretanto a cavaleira encontrou em Portugal, uma família do attaché militar da diplomacia britânica que estava colocada em Lisboa em casa de quem Ginnie também viveu.

Os estrangeiros que vivem em Londres têm muito em comum por serem um pouco desadaptadas das sociedades de onde provêm e “eu penso que isto se adequa também à Virgínia e ao Alberto” , estavam desconfortáveis nos mundos de que provinham, este detalhe, torna ainda mais interessante esta história quer para quem migrou para entender melhor a sua própria realidade, quer para quem nunca o fez que através deste livro descobre sensibilidades novas que de outra forma não conheceria.

Nas palavras de CMC, quer Virgínia quer Alberto, eram dois inconformados embora o Alberto fosse mais insatisfeito e por isso, este livro que retrata uma história real, transporta o leitor para um ambiente sociológico onde a intensidade da vida permanece em ambientes por vezes hostis e ao mesmo tempo apaixonantes.

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– Se Alberto tivesse vindo pera Inglaterra, este caso de amor seria possível? – Perguntamos.

– Não, não era. Em primeiro lugar o Alberto nunca aprendeu a falar inglês, e sendo aventureiro acaba por se estabelecer em Espanha que se adequa a ele até porque ele falava espanhol. Alberto passou década e meia na América Latina e isso deu-lhe experiência para se adaptar a qualquer paìs e correu muitos países. Chegou mesmo a vir a Inglaterra visita-la mas não gostou da experiência que cá teve que durou apenas alguns dias. Não penso que este fosse o país para eles” revela CMC.

No sonho do casal, teria sido o México a «arena» onde se poderiam instalar mas “o problema para eles foi sempre no bolso. Eles nunca tiveram dinheiro suficiente para comprar cavalos e o amor falhou por falta de dinheiro” – conclui CMC.

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PN/Londres

Alcino G. Francisco

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