Política Europeia a caminho de “geringonças”
Wednesday, October 23, 2019.

Desenham-se novos cenários políticos para a Europa. Os tradicionais partidos populares ou “partidos do povo” (1), que faziam parte do arco do poder, encontram-se em decadência por já não poderem contar com a fidelização popular.

Recolha de todo o tipo de lixos

A Alemanha construiu, num equilíbrio federal de centralização e descentralização (regionalismo), um Estado social forte com alto padrão de vida, e do qual depende em grande parte o desenvolvimento da Europa; numa tal situação os objetivos, que o partido SPD originariamente tinha para o operariado, encontram-se em vias de realização ou com falta de aferimento social; hoje existem desafios que ultrapassaram o SPD porque não esteve atento à mudança da realidade social e do grupo alvo. Um motivo do mau resultado nas eleições estará na desunião dos dirigentes do SPD e dos adeptos rebeldes que pensam o bem-estar criado pelos tradicionais partidos de governo como natural, e ao mesmo tempo expressam exigências de uma juventude europeia que não se sente, devidamente, tomada a sério nos seus temas prediletos (2).

Uma sociedade, cada vez mais diferenciada e determinada por critérios de eficiência imediata, exige das elites e das centrais de pensamento maior atenção aos sinais dos tempos para a consequente celeridade na adaptação à mudança. O povo está educado para ser adepto e seguir estrelas, o que implica, nos partidos, grande capacidade de reagir às tendências em curso, e, para isso, pôr na linha da frente representantes jovens e carismáticos (em Portugal Sócrates fez o que fez, em grande parte devido ao seu charme narcisista, aquilo que hoje se consome muito!).  Por outro lado, o Zeitgeist da sociedade já não considera como prioritário o tema da justiça social: as preocupações são primeiramente clima, imigração, digitalização…; os partidos que tematizarem convictamente estes assuntos têm maiores probabilidades de ganhar eleições.

Transportes e mudanças

Numa sociedade cada vez mais descontextuada, em que a velocidade é determinante, desenraíza as pessoas a mudar-se, e a sentir-se até em fuga, sem saber para onde; e o problema é que, nesta fase histórica de transformações rápidas, a quem não muda acontece-lhe como à figura bíblica de Edite (mulher de Loth) que ao olhar para trás é convertida em estátua de sal.

O carrossel dos povos, puxado pela globalização, atingiu tal velocidade que as populações tripulantes perderam a visão do que se passa ao lado e ao longe, sendo condicionadas a agarrarem-se ao cesto que as transporta e deste modo a reagir de modo mais emotivo que racional. O imediato torna-se o óbvio e o factual destrona o pensamento. A reacção substitui a acção passando a chamada inteligência emocional a ter a soberania sobre o entendimento intelectual; o eleitorado reage criando novas situações de governos, um facto fruto da desconfiança num partido ou num sistema que tem ignorado muitos problemas essenciais e esse dado factual mostra que o partido já não serve e, para se tornar necessário, terá de se mudar radicalmente mas isto não é reconhecido pelos lideres devido ao próprio envolvimento no que fazem e que os torna míopes para uma realidade que se encontra sempre em processamento.

O recrutamento de membros do pessoal júnior para altos cargos de responsabilidade num partido já  não poderá ser orientado por perfis de fidelidade e mérito numa carreira longa dentro do partido; isso impede a resposta adequada ao Zeitgeist com pessoas carismáticas e fomenta  o abuso de carreiristas de longa duração que criam subserviências prejudiciais ao desenvolvimento do partido e da sociedade política (Veja-se o anacronismo do que acontece com o PSD e a maneira ainda antiga de um PS no seu jogo das escondidas com a sociedade).

West Norwood – Londres

Hoje juventude é trunfo e as pessoas desgastam-se rapidamente, o que exigirá novas estratégias na política do pessoal representativo dos partidos.

A líder do SPD (Andrea Nahles), devido às críticas na sequência do mau resultado do partido (15,8% nas eleições europeias), e segundo o princípio do bode expiatório, declarou a sua demissão da presidência do partido e da Fracção. Talvez se tenha empenhado demais pelos interesses da Alemanha e menos pelos do partido! (Em Portugal dá-se o contrário porque os governantes fazem mais política partidária militante, coisa que o povo não nota e são, consequentemente, premiados pelos votantes; o facto de em Portugal o sistema da geringonça ter aparentemente resultado, dever-se-á ao pouco peso da economia produtiva portuguesa para o andamento da europa!).  Na hora dos rebeldes é castigado um partido como o SPD que tem gastado demasiado tempo de discussão consigo próprio e não esteve atento ao desenvolvimento social (3); como diz o politólogo Prof. Dr. Jürgen Falter o SPD esqueceu que “o trabalhador clássico se tornou numa ocupação minoritária, no passado eram mais de 50% e hoje nem sequer 25% são”. Hoje, o sector dos salários baixos está a ser ocupado por muitos migrantes, que, frequentemente, não têm direito a voto.

Os partidos precisam de união e de novos conteúdos para poderem convencer o público. A chefe do SPD no governo de coligação (CDU/CSU e SPD, ao demitir-se das suas funções, (4) confessou: “o apoio necessário para o desempenho das minhas funções já não existe” (especialmente o dos deputados da sua Fracção no Bundestag!) e terminou a declaração de resignação com um recado aos membros do partido: “Espero sinceramente que consigam reforçar a confiança e o respeito mútuo e assim encontrar pessoas que possam apoiar com toda a vossa força”. O problema do SPD é também, de momento, não ter pessoas carismáticas.

Advogados internacionais

Como se verifica no SPD a política é um negócio cruel que apenas conhece companheiros, mas não amigos e o espaço entre os partidos cada vez é menor.

É verdade que a grande coligação alemã (GroKo) irá sofrer alguns sobressaltos, mas manter-se-á porque nenhum dos tradicionais partidos de governo quer praticar haraquíri.

Atendendo à vertigem do desenvolvimento tecnológico e social, vão deixando de existir os partidos tradicionais em que as pessoas se ligavam de pais para filhos já no lar materno e em que escolhiam a filiação partidária como família alargada; hoje é mais visível a dinâmica dos interesses e estes mudam continuamente. Às ideologias dos sistemas ou de uma classe dominante, sucede-se uma sociedade de boys, estrelas e ONGs que reagem prontamente ao desenvolvimento do mercado e por isso não deixam lugar para descanso em posições cómodas nem em pensamentos adquiridos. O dinheiro é rei como podemos ver bem documentado também nas pessoas mais socialistas.

As novas tecnologias, com a digitalização do mundo laboral mudarão mais radicalmente a situação de trabalhadores, empregados e funcionários e com ela aumenta a exigência de transformações a nível de pessoal e de conteúdos nos partidos que pretendam interferir no futuro. Em política tudo é possível e os interesses e as circunstâncias é que determinam o agir (5).

Apostar num partido como algo imutável ou no Zeitgeist (pensamento politicamente correcto do regime do momento) implica pôr em risco o próprio desenvolvimento! Naturalmente o pertencer a um partido ou outro, além do mais, pode trazer vantagens pessoais que constituirão argumento para não pôr em risco um futuro ou uma vida beneficiada!

Alimentação sem Glúten 100%

Em Portugal, na classe política, ainda domina o pensamento antigo tornando-se propriamente impossível mudar a situação de fundo porque Portugal, mais que uma democracia de cidadania vinculada ao povo, é uma República em que os corporativistas se apossaram do Estado, com a agravante de se desvincularem do povo! As pessoas agarram-se a pessoas bem-intencionadas, mas não notam que estas pouco podem fazer, devido a um sistema que, por natureza, as impede porque não está virado para o cidadão. O PS tem gozado ainda do carisma de alguns de seus lideres e também do facto de a sua ala social-democrata emparelhada com a ala ideológica de caracter marxista conseguirem o apoio nas urnas, muito embora 70% da população eleitoral não tivesse votado nas eleições europeias, de que o PS saiu maioritário. A crise dos partidos também está a chegar a Portugal em situação enviesada. (Com o tempo, apesar da constituição favorecer a esquerda, teremos um PS dividido à imagem do PSD e à imagem do que acontece hoje ao centro-direita: os egoísmos individuais são cada vez mais fortes.). Uma das consequências de uma sociedade cada vez mais diferenciada cria a necessidade de novas expressões de poder. O desenvolvimento social e a política atual trazem como consequência a dissolução das fronteiras entre os partidos. O factor osmose que outrora era lento torna-se hoje mais rápido porque a sociedade também, é mais rápida.

PN/António Justo/Alemanha

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