O Bufo que o Reino Unido proíbe
Saturday, September 22, 2018.

Tem as suas origens nas tribos indígenas da América Central e do Sul e a substância, inalada através de um cachimbo de vidro é extraída do sapo Alvarius no deserto do México.

Em muitos países, incluindo o Reino Unido, é proibido embora em outros países da Europa o seu consumo seja permitido. Fui a uma sessão e renasci para contar a história. O local foi algures em Inglaterra e fui integrado num grupo de seis pessoas. Três delas tinham experiência anterior neste género de aventura e filosofia, todos os outros éramos caloiros.

Na entrada da casa, uma jovem mulher recebeu-nos; vestida de branco e com uma substância fumegante na mão. Depois de nos descalçarmos na entrada, fomos fumados à vez num ritual

de limpeza. A partir daqui, todo o destino seria um ritual que me levaria a uma viagem para recordar em todas as vidas.

Depois de higienizar a “aura” pelo defumo, entramos numa sala. Para mim, o ambiente era simpático e descontraído; nem por isso deixei de estar tenso.

Sentado no chão da sala contígua, um índio convidou cada um de nós a sentar num sofá ao longo da parede. Fiquei junto à janela.

No chão, um cobertor, coberto também ele por um manto colorido tendo ao centro a imagem de um sapo. O sapo Alvarius. A sala estava desarrumada com taças metálicas, maços cilíndricos, toalhetes de papel, embalagens de plástico e recipientes de madeira.

Nas paredes, quadros coloridos de cores quentes e isolado, numa das paredes, um quadro com o sapo.

O índio e a sua assistente, de origem meia portuguesa, dão início aos trabalhos.

Tudo começa com uma pequena entrevista a cada um dos presentes no sentido de nos ser perguntada a razão pela qual estávamos ali presentes. Cada um deu a sua razão e eu dei a minha. “I want meet my self” (Quero-me encontrar comigo) – disse.

O índio, cujo nome oculto porque não pedi autorização para mencionar, passou então a explicar, pela rama, o que se iria passar dali em diante.

Foi desafiado o primeiro viajante por se tratar de uma pessoa já com experiência anterior. Subiu ao cobertor e foi defumado pelo índio. Depois, foram defumados cada um dos presentes. Sentado na posição de lótus de frente ao índio e com a assistente ao lado, abriu-se a primeira “cortina” para uma viagem que só o próprio iria conseguir fazer.

Os restantes membros, onde eu me encontrava, ficamos sentados a assistir.

O Índio pronuncia algumas palavras para o viajante e passa-lhe algumas instruções que veremos mais à frente. Uma malga metálica com ranhuras tribais e com água, passa pelo viajante, depois pela assistente, depois pelo próprio índio. Os três bebem.

Senta-se o viajante de frente para o índio e a assistente na lateral. O viajante, recebe do índio o pote de madeira com o cachimbo de vidro dentro e encosta o pote no peito junto ao coração, fecha os olhos e prepara-se. Inspira e expira três vezes de forma profunda, levanta a mão direita em sinal de que está pronto e é quando o Índio encosta a boquilha, também ela de vidro, na boca do viajante para uma baforada intensa.

O que se passou a seguir, sei hoje, divide-se em duas partes. Aquilo a que estamos a assistir a partir do sofá comprido encostado na parede, e aquilo que só o próprio pode descrever se for capaz.

Da posição de lótus, o viajante passa à posição deitado de forma involuntária com a ajuda do índio e da assistente. Poucos segundos depois, ri, abre os olhos, fecha-os, levanta as pernas, atira beijos de olhos fechados.

O índio e a assistente, com tijelas metálicas, maços, guizos e paus cilíndricos, produzem sons e cânticos numa frequência para mim ininteligível. Do peito à zona da pélvis, pedras semipreciosas vão mudando de lugar. Os cânticos continuam numa cadência musical que a mim me parece vulgar. O viajante solta gemidos ora divertidos, ora sofridos. Uiva como se estivesse a ver a Lua Cheia.

Os cânticos cessam mas as tijelas metálicas e os maços, continuam o rodopiar e a produzir sons e as pedras a mudar de lugar no corpo do viajante. O seu rosto, enche-se de risos numa face de alegrias incontidas e para mim despercebidas.

Talvez uns quinze minutos depois o viajante acorda da sua “viagem”. Abre os olhos e pergunta:

– Já acabou? Estou de volta?

– Sim – diz-lhe o Índio enquanto lhe segura a mão a confirmar que tudo está no seu lugar.

O viajante, já experiente, diz que sim quando o índio lhe pergunta se quer uma segunda dose. Acende-se de novo o cachimbo e o viajante recomeça a viagem. Quando regressa, sorridente e feliz, é enviado para um colchão situado atrás do Índio para relaxar. Deita-se, fecha os olhos e fica inerte no seu ar de felicidade.

Segue-se uma jovem; segue-se o ritual do defumadouro aos presentes, a água, o cachimbo encostado no peito, a meditação, a respiração profunda por três vezes e a inalação no cachimbo de vidro. Minutos depois, entre choro sem lágrimas e risos descontrolados iniciais, o relax absoluto.

A viajante, passa também ela da posição de lótus para a posição deitada. Os potes, os cântico, os guizos e os maços voltam a entrar em acção na companhia das pedras que vão mudando de lugar. Entra mais uma mulher. Desta vez mais madura e tudo se repete depois de eu já ter tirado um cuchilho no sofá. Cada viajante demora cerca de trinta minutos desde que se levanta do sofá até que relaxa no colchão encostado na parede oposta ao lugar onde estou.

Chegou a minha vez. Olhei o Índio nos olhos e ele nos meus de forma fixa e permanente. Pediu-me para pensar com os olhos fechados nas intenções que ali me levaram. Nos meus desejos, na expulsão dos meus medos, nos meus objectivos pessoais naquela cerimónia.

Encostei o pote com o cachimbo de vidro no peito e pensei no encontro comigo mesmo. Queria saber de mim. Ver-me ao espelho e saber mais sobre esse personagem que tanta gente conhece e que às vezes eu pareço desconhecer.

Respirei profundamente três vezes e levantei a mão a dizer que estava pronto para o fumo. Fui inalando tão lentamente quanto consegui até sentir o vidro da boquilha quente. Tirei a boca da boquilha mas voltei, sôfrego de fumo e viagem.

Entreguei-me a mim mesmo e embarquei sem saber para onde num destino que era eu.

O que se passou na sala que os outros pudessem ver, vim a sabe-lo horas depois. O que aconteceu comigo no momento, só eu posso descrever; se for capaz.

Os sons produzidos pelas tijelas metálicas e os maços, os cânticos do Índio e da sua assistente, ganharam uma acústica que nenhuma catedral será capaz de produzir. Que nenhum ouvido humano, será capaz de ouvir.

Vi o céu da mesma forma que os astronautas mas com um campo de visão muito mais alargado. Não o vi apenas. Eu estava lá. Não estava apenas lá. Eu fazia parte desse imenso espaço negro cheio de pontos e linhas coloridas, num bailado de harmonia e paz como nunca tinha pensado ser possível existir.

Pela primeira vez na vida, percebi a sensação de parar no tempo e no espaço a ganhar uma consciência da eternidade onde eu estava a flutuar sem pesos. Nem físicos, nem emocionais nem qualquer outro. O tempo parou, o espaço era infinito e eu parte dele.

Percebi então quem era eu misturado num infinito de cores num desenho Divino. Talvez por isso, chamem à molécula do sapo a partir da qual é extraído o fumo “A molécula de Deus”.

Tudo que o espaço tem, tudo o que já vimos e ainda não pudemos ver, estava diante dos meus olhos numa ausência de morte, de tempo, peso e espaço.

Suspenso algures num lugar a que chamo lugar nenhum, o tempo parou e a distância tornou-se Universal.

O único lugar até onde esta viagem consegue levar as minhas memórias, é a uma noite de amor que os meus pais foram capazes de inventar porque o lugar mais parecido com o lugar que visitei se chama placenta. Flutuar sem tempo nem distância a fluir para um destino que não importa e explodir como um espermatozóide.

Descobri que afinal, o Céu escuro a que chamam o buraco negro, está rendilhado de pantones que se cruzam e descruzam numa harmonia que não consigo descrever. E eu, a fazer parte dela. E eu, a fazer parte Dele. A conspirar segundo os meus desejos e a descobrir-me perante mim mesmo. Em cada linha, em cada acorde das tijelas de metal e maços e pedras coloridas pousadas no meu corpo e que só eu, não conseguia ver. E vi-me como mais poderosa poeira que já algum dia vi.

A flutuar nas asas de um sapo, onde nenhum avião ou foguetão me consegue levar, percebi então que também eu estou numa gota de orvalho, no bico de um pássaro, na tromba de um elefante, na folha de uma qualquer flor, na raiz de uma árvore, numa onda do mar, no centro de uma nuvem, num raio de Sol, na teia de uma aranha e dentro de mim mesmo visto pelos meus próprios olhos fechados a aprender a meditar.

Neste encontro comigo, aprendi que a minha família, és tu que estás a ler este texto e todos os outros que nunca terão oportunidade de o ler e que aquilo que damos à família se chama Amor.

Acordei, relaxei e assisti ao ritual dos outros passageiros. Agora sim. Eu sabia que não importa o que eu estava a ver mas sim o que o passageiro seguinte estava a integrar.

Lá estava eu, perante mim mesmo, sem julgamento. Apenas presente num infinito que nos pertence a todos e do qual todos fazemos parte. Lá estava eu, sem religião sentado no colo de Deus como se de uma placenta se tratasse.

Da comunhão comigo à comunhão Universal.

Alcino Francisco

Algures no Reino Unido

23 Março 2018

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