Joana Gaspar é a nova Cônsul de Portugal em Londres
Sunday, September 23, 2018.

Joana Gaspar acaba de chegar a Londres para desempenhar as funções de Cônsul Geral de Portugal. Pela primeira vez, o cargo é desempenhado no feminino.
Natural de Alvalade (Lisboa) e licenciada em Relações Internacionais, ingressa no nos quadros do Ministério dos Negócios Estrangeiros aos 22 anos, onde inicia uma carreira fulgurante.
“Se tivesse que ser adepta de um clube, talvez fosse do Benfica” – revela apelando ao facto de ter praticado natação naquele clube de Lisboa mas não professa nenhum dos clubes. “Não entendo nada de futebol” – confessa.
Acidentalmente, estava aberto concurso para a carreira diplomatica quando termina o curso e decide concorrer e assim foi admitida por concurso publico.
Antes de chegar a Londres, enche a mala de experiência nos Assuntos Europeus onde prestou serviço na Direção Geral aquando da Presidência de Portugal. A seguir, haveria de assentar arraiais no Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado e preenche os ultimos três anos em Portugal na Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas onde toma contacto com todos os postos consulares do Mundo, incluindo o de Londres. Aqui, exercia as funções de apoio aos consulados de Portugal em todo o Mundo.
“As minhas funções eram fundamentalmente as de apoio aos consulados. Quando havia duvidas sobre algum processo” e dai lhe vem o acompanhamento dos assuntos do Consulado de Londres, já com um percurso de três anos. A ultima colocação que teve no estrangeiro, foi na Embaixada de Portugal em Paris (não nos assuntos consulares), pelo que é já extensa a exposição que tem às questões consulares e aos assuntos que envolvem o Consulado de Londres.
– Com toda a experiencia que tem nos contactos através da Secretaria de Estado, conhece o histórico do Consulado de Londres?  – perguntamos
– Conheço sim. – foi a resposta pronta.
A pergunta armadilhada, traria “água no bico” e não resistimos a questionar.
– Acha que foi atirada às “feras”?
– Não, não acho. Acho que é um grande desafio e eu gosto de desafios.
Com apenas um mês de exercício (Agosto), importaria perceber que sensibilidades e que projetos carrega na bagagem que trouxe para Londres. Do que encontrou no Consulado, destaca a equipa de funcionários que eleva a categoria da excelência “apesar das condições complicadas em que tem vivido, sobretudo nos ultimos anos, desde 2009 com a diminuicao de salarios e o aumento de horarios. Não foi necessáriamente uma surpresa mas foi uma constatação muito boa” – remata.
Neste primeiro mês, o levantamento aponta diretamente para a necessidade de modernização e desenvolveu já algumas ideias para aumentar a eficiência do Consulado no que toca ao aumento do volume de atendimentos e diminuição dos tempos de espera.
A primeira necessidade porém, aponta para uma esperança pouco viável nos tempos que se aproximam. “O aumento do quadro de pessoal” – refere para acrescentar: “Este Consulado passou de 20 funcionários para 13” – afirma para continuar – “Isto em contraponto com um aumento exponencial da imigração Portuguesa para o Reino Unido que é neste momento, o primeiro destino”.
– Com a sua experiência em Paris, concorda que o Consulado de Londres deveria ter o mesmo volume de funcionários per capita que existem em Paris?
– Concordo plenamente mas nem sempre podemos ter aquilo que queremos ter e na fase em que Portugal se encontra, com as contenções financeiras, vamos ter que fazer omoletes sem ovos – afirma.
Com os cortes salariais e orçamentais que afetam horizontalmente toda a estrutura da Administração Publica, a questão fica em saber como pensa conseguir Joana Gaspar motivar a equipa de funcionários ao serviço em Londres.
– Não depende de mim. Tem sido cada um dos funcionários do Consulado a “vestir” o sentido do dever do funcionalismo publico e é esse sentimento que encontro nos funcionários do Consulado em Londres. O sentido do dever e do querer servir o povo português. Espero porém poder contagiá-los com a minha energia e com as mudanças que estou a pensar introduzir.
A acrescentar aos cortes salariais e orçamentais, Joana Gaspar destaca as dificuldades inerentes do atendimento ao publico.
– Há muitas dificuldades de atendimento?
– Bastantes. Não é fácil principalmente por causa da pressão no trabalho. São sempre pessoas diferentes, situações diferentes com que os funcionários se deparam e a maioria não tem Formação específica de atendimento ao publico e essa é uma das áreas em que tenciono trabalhar. Nem sempre é facil quando temos uma sala de espera cheia para atender e queremos atender o melhor e o mais rapidamente possível. Por vezes surgem dificuldades burocráticas ou administrativas que por vezes são difíceis de explicar.
– Como espera conseguir disponibilidade temporal e orçamental para investir na Formação dos Recursos Humanos?
–  O Ministério tem neste momento capacidade de fornecer essa Formação online e eu mesma fiz esse tipo de Formação antes de vir para Londres que me deu uma maior noção do desempenho que tenho que desenvolver. São ações de Formação que ajudam a entender melhor a gestão de tempo, atendimento ao público e que permitem redução dos gastos. Não podemos pensar em ter todos os funcionários em Formação porque esses elementos estarão fora do atendimento mas seria importante que pudessemos ir fazendo essa Formação em função das disponibilidades.
Joana Gaspar, trouxe também ideias que merecem uma especial atenção. Uma delas, passa por dar um maior destaque ao trabalho desenvolvido pelo antecessor Fernando Figueirinhas nas questões tecnológicas. “Foram eliminadas as filas intermináveis de pessoas e isso foi um passo em frente. Eu penso incremetar esse trabalho até porque os agendamentos online ainda não estão a funcionar em pleno e o site ainda está muito lento. Isto já foi comunicado ao Ministério”. Este sistema de marcações online teve o seu início em Londres e encontra-se neste momento já disponível nos consulados de Angola e da África do Sul.
Quanto ao website do Consulado de Londres, Joana Gaspar está a remodelar a informação contida para que o espaço possa ser mais intuitivo na navegação e mais simples na percepção de conteudos.
No entanto, as grandes apostas ainda estão a ser estudadas e surpreendentemente, a nova Cônsul de Portugal em Londres, desvenda aquilo que há pouco tempo atrás seria impensável.
– Uma das minhas ideias é a criação de uma plataforma do «Consulado em Casa». Há alguns atos que não precisam da presença física do cidadão como por exemplo uma Certidão de Nascimento ou de Casamento. Penso que estes pedidos possam ser feitos online e o cidadão recebe o documento tranquilamente em casa pelo correio através do envio de cheque para pagamento.
Apesar das ideias de utilização das tecnologias, a verdade é que o sistema de pagamentos não tolera a utilização de pagamentos online. Soluções como a transferência bancária ou o PayPal, estão de todo excluídas das soluções que o Ministério consegue utilizar. Será, em todo o caso, um conjunto de soluções que potencialmente pode aliviar o movimento humano nas instalações do Consulado aliviando por consequência os tempo de atendimento e permitindo um maior volume de atendimentos presenciais. “Temos que ir por pequenos passos e conseguir evitar que as pessoas se desloquem ao Consulado já será por si um grande passo” – afirma.
A grande ideia, cai nesta entrevista a dar mostras de uma nova dinâmica que finalmente tende a instalar-se num dos mais problemáticos consulados de Portugal em todo o Mundo. Joana Gaspar, alimenta nesta entrevista a ideia da criação de uma página na rede social do Facebook.
– Quase todas as pessoas acedem ao Facebook e esta página seria útil para aproximar o Consulado dos cidadãos tanto ao nível da informação como para recolha do feedback dos cidadãos.
Uma das mais recentes inovações da secretaria de Estado das Comunidades, foram as Permanências Consulares que paulatinamente tem vindo a desenvolver-se em vários países. Também aqui, a Cônsul Geral expõe algumas ideias que podem aproximar o Consulado dos cidadãos.
– A maioria das Permanências Consulares são efetuadas nas câmaras municipais (Council local) que nos impõe uma limitação horária. Quando as instalações fecham, somos também obrigados a concluir o nosso trabalho. Estou a tentar encontrar uma solução que nos permita fazer as Permanências com um horário mais estendido de forma a podermos rentabilizar melhor o esforço das Permanências. Quando nos deslocamos, devemos ter por objetivo atender o máximo de pessoas possível – disse.
O movimento associativo, está também ele na mira de Joana Gaspar como cumplices na divulgação da informação. “A possibilidade de interação do Consulado e do movimento associativo não só é possível como é desejável” – refere a Cônsul de Portugal.
Outra das novidades que Joana Gaspar deixa nesta entrevista, é que o numero de máquinas disponíveis para a produção de cartões de cidadão é agora de cinco, o que significa um aumento de capacidade de produção de 40%. Não fosse a incapacidade de operar o equipamento por falta de pessoal, esta até seria uma boa notícia para a população portuguesa. A Cônsul de Portugal em Londres, tem um período garantido de três anos que se poderá estender a cinco para cumprir os objetivos a que se propõem. Durante esse tempo, os objetivos passam por “um Consulado organizado, que as pessoas possam sair daqui satisfeitas com o atendimento, que antes de chegarem possam estar informadas do que precisam para não terem que cá voltar. Gostava de ver o movimento associativo unido e que possa voltar a haver um grande 10 de junho como já me disseram que houve no passado” – destaca.
A finalizar esta entrevista, Joana Gaspar revela as suas preocupações sociais nomeadamente com o população prisional e as famílias com carências e dificuldades com a Segurança Social britânica. “O Consulado pode intervir, seja através de sessões de esclarecimento, seja através de uma melhor informação e penso que seja uma área a merecer a nossa especial atenção” – refere para adiantar que o “Consulado pode intervir junto dos serviços prisionais de forma a que os pedidos sejam atendidos”.
Fruto de muitas destas situações, existe em Lisboa uma discusão sobre a questão das deportações de portugueses pelo Reino Unido. Joana Gaspar porém, argumenta que as deportações têm sido regulares pelo que a intervenção consular não pode passar por cima dos direitos dos cidadãos que escolhem ser deportados e as autoridades inglesas, têm cumprido os acordos existentes. “Não há razões para neste momento se reclamar sobre a questão das deportações feitas já que estas têm cumprido a legislação” – finaliza.
PN

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