Stockwell Partnership em parceria com a Comunidade de Língua Portuguesa a Sul de Londres
Wednesday, October 16, 2019.

Chama-se Maria Marques, é Portuguesa e diariamente atende as pessoas da Comunidade de Língua Portuguesa com todo o tipo de dificuldades. “Estamos lá para resolver os problemas das pessoas mas também para as ouvir” – diz ao Palop News uma das mais conhecidas figuras da Comunidade Portuguesa em Londres.

Faz alguns anos que Maria Marques é o “passaporte” de muitos falantes de Português para a solução de problemas albergados numa das mais antigas estruturas associativas em Lambeth com o nome de Stockwell Partnership.

“A Stockwell Partnership tem mais de vinte anos” – diz Maria Marques ao Palop News para acrescentar – “Não me recordo propriamente dos fundadores. Quando entrei conheci o John McCay que era Secretário, que ainda é hoje, e o George Wright que era o Director da instituição na época”. Hoje, a instituição tem aos seus comandos Steve Griffin (diretor), o seu principal rosto.

Ao nível do funcionamento interno, as garantias da instituição são dadas pelo seu calendário eleitoral e pela sua agenda de actividades. “Tem um “board” (Direcção) que vai mudando ao longo dos anos. Os membros dessa Direcção são de Stockwell mas não só. Acabam por serem pessoas um pouco de toda a Lambeth” – refere Maria Marques que assume não ter tido oportunidade de conhecer todos os directores que já passaram pela instituição ao longo de duas décadas.

Maria Marques, entrou ao serviço da Stckwell Partnership a primeira vez em 2001 com apenas vinte e três anos para sair no ano seguinte. Não estaria ausente muito tempo. Apenas um ano depois, volta a ingressas ao serviço da “Charity” onde se mantém até agora. Por força desta presença, são muitos os falantes de Português que recorrem ao serviço da instituição que para além dos portugueses, trabalha com muitas outras nacionalidades. “Entre funcionários e voluntários, procuramos ter pessoas que dominem as diversas línguas comunitárias de Lambeth.

Advogados internacionais

Latino-Americanos, Espanhóis, Polacos e até já tivemos apoio para as comunidades da Somália e da  Eritreia e claro está, os que falam Português que são uma grande comunidade em Lambeth” – diz. Pela informação dos ficheiros do Palop News, serão mais cinquenta mil os portugueses a viver nesse concelho de Londres conhecido pelo “Litle Portugal”. No entanto, por força dos moradores que falam Português e pela presença de Maria Marques ao longo de duas décadas, são muitos os Portugueses que ali se deslocam com os seus problemas de diversa ordem.

De tal forma a Comunidade de Língua Portuguesa confunde a instituição com a compatriota que lá trabalha, e muitas pessoas chamam ao imóvel “o escritório da Maria” que nos últimos dez anos tem sido a grande referência para quem fala Português e na maioria das vezes não falando Inglês.

De resto, um dos grande anseios da instituição de quem o estatuto de “Charity” (Utilidade Pública), é ter alguém na Direcção que pertença à Comunidade de Língua Portuguesa. “Gostavamos de ter no “board” alguém que fosse ou falasse Português. Infelizmente até agora não

Instalações Stckwell Partnership – Lambeth – Londres

temos tido interessados. Tivemos uma vez o Lino Diogo mas não ficou muito tempo por discordar das directrizes. A partir daí nunca mais tivemos ninguém a representar a Comunidade Portuguesa. Já fizemos várias ofertas e já publicitamos para outras pessoas mas sem êxito. Não temos tido uma resposta positiva.  Gostávamos de ter alguém da nossa Comunidade para não serem só ingleses” – diz Maria Marques para continuar – “Com tantos utentes a falar Português faria todo o sentido que houvesse alguém no “board” a falar Português e a representar a Comunidade e a ajudar a tomar decisões em todas as areas  e objetivos que esta organização tem” – lamenta.

Ao longo dos anos, foram muitos os milhares de falantes de Português que passaram pela Stockwell Partnership e o volume de pessoas parece não abrandar. “Atendo por dia pessoalmente por marcação na minha agenda, seis pessoas num registo diário. Depois vêm as pessoas sem marcação, que quando são coisas simples como um telefonema ou a explicação de uma carta também são atendidas” – contabiliza. Serão entre seis e oito as pessoas que são atendidas em Português. Para casos mais complexos têm os dias de semana assinalados. “Os dias mais preenchidos são de 2ª a 4ª Feira e na 5ª ou sexta, podemos atender mas o serviço está mais vocacionado para outras áreas de trabalho o que só nos permite atender entre três a quatro pessoas.

Saídas semanais para Portugal

Nos últimos dois dias da semana, o serviço interno está mais alinhado para desenvolver o trabalho de expediente e atendimento pontual de pessoas que por vezes aparecem sem qualquer marcação. No lote de serviços prestados à população, estão sobretudo os subsídios (benefícios como a Comunidade costuma dizer numa mistura de Inglês «benefit» e Português) mas o menu da instituição não se resume aos apoios financeiros do Governo ou do Município. “A outra parte do projecto consiste em fazer currículos, ajudar a encontrar emprego e a publicar nas nossas páginas das redes sociais, para recrutar voluntários para ajudar a atender as pessoas e a organizar o grupo sénior”. Neste grupo, nem todos porém são “maduros” na idade. “Não são todas seniores apenas a maioria. Temos pessoas de 40 e poucos ou cinquenta e poucos anos mas que têm em comum o facto de estarem isoladas e sem grande contacto com outras pessoas e normalmente terem um problema de saúde. Esse grupo tem que ter as suas actividades coordenadas e esse trabalho também é feito por nós” – esclarece Maria Marques.

Atendimento

No conjunto das actividades, a Stockwell Partnership é uma legenda bem Portuguesa na afirmação do «pau para toda a colher». “Atendemos quem precisa de subsídios ou de emprego e depois o grupo sénior e o voluntariado”.

Nesta instituição, todos os serviços são gratuitos. “Temos os «founders» (financiadores) que subsidiam o nosso trabalho como por exemplo THE BIG LOTTERY FUND . É com dinheiro desses financiadores que a instituição vive e cobre as suas despesas” adianta.

Na frente de todos os serviços requisitados pelo público, estão os subsídios. “A nossa Comunidade sofre muito em termos financeiros. Todos se queixam que tudo está muito caro, as rendas são muito elevadas e as pessoas não conseguem viver só com o ordenado principalmente quando há filhos pequenos. Mesmo quando o marido trabalha a tempo inteiro e a mulher a meio tempo é difícil viver com o valor desses salários. O dinheiro não chega. Nós somos a ponte para o apoio financeiro” – esclarece.

West Norwood – Londres

Maria Marques, contabiliza os últimos três anos de actividade e dos confrontos que tem tido com as situações de vida das pessoas que a consultam. “Tivemos muitas pessoas que estavam a trabalhar a tempo inteiro e que adoeceram muitas sofrem de cancro, problemas cardiacos por exemplo e que não conseguem trabalhar,  temos muitas mães solteiras porque o relacionamento não resultou e com filhos pequenos que precisam de apoio. Eu diria que noventa por cento das pessoas que atendemos são para efeitos de subsídios”.

Existem porém outros casos de menor expressão que passam pelo atendimento e que Maria Marques recorda. “No caso de violência Doméstica, serão menos de 1%”.

Se os subsídios são o «prato forte» da instituição, o «produto» de montra é o apoio à habitação. “O subsidio mais pedido é o da «Hounsing Beneffit” – diz Maria Marques.

Muitas das pessoas que se dirigem ao serviço da Stockwell Partnership, carregam a informação que possa sustentar o direito ao apoio. Na

Caixa Geral Depósitos

secretaria da instituição, compete encontrar o processo para o êxito da candidatura. “Quando desenvolvemos o processo já temos a garantia de que o processo está de acordo com a legislação. Futuramente a vida das pessoas muda e algumas vão perdendo o apoio total ou parcial do apoio concedido. Quando a vida das pessoas melhora o Estado ou o Município ajusta o apoio” – diz Maria Marques.

Há mensagens que urge passar a quem fala Português no Concelho (Council) de Lambeth. Para Maria Marques, há seguramente dois tipos de mensagem que é urgente levar ás pessoas e uma delas é “Sejam mais independentes. Não tenham tanta dependência dos apoios financeiros do Estado ou do «Council» – refere.

Já a segunda mensagem passa pelo apelo “para respeitarem o nosso trabalho. Há pessoas que (embora em minoria) que não tem respeito pelo menos em termos de horário. Ainda há utentes que pensam que não precisam de horário ou de marcação. Algumas acham que as marcações são muito longas e que não podem esperar. Outras pensam que por ser grátis o serviço não tenha qualidade (principalmente as pessoas que vao pela primeira vez ) mas depois vêm com o retorno positivo e a reconhecer a nossa competência. Algumas perguntam insistentemente na certeza que não é preciso pagar” – diz a nossa entrevistada para acrescentar – “Há pessoas que não respeitam a nossa hora de almoço e até aquelas que entendem que não deveríamos ter férias. Outras acham que fazer marcações é estúpido e que não deveria haver marcações e não entendem que existe uma lista de espera” – explica.

Recolha de todo o tipo de lixos

Se é verdade que os serviços são gratuitos, também não o será menos que as pessoas beneficiadas, perante a concretização do apoio pretendam agradecer. “Nós não podemos aceitar dinheiro. Se uma pessoa quiser fazer uma oferta tem que preencher um questionário a dizer que pretende fazer um donativo. Essa oferta é feita na conta bancária da Stockwell Partnership e essa é a única forma” – informa. E acrescenta. “Há pessoas que trazem um café ou um bolo mas não podemos aceitar ofertas em dinheiro.

O mínimo são duas libras por imposição bancária. Mesmo para esse valor tem que fazer o depósito no banco com a referência de donativo. Tem de ser tudo documentado já que o «board» precisa de saber quem fez o donativo, eles precisam saber de onde o dinheiro vem” – diz.

Para muitas pessoas que recorrem ao serviço da instituição, muitas vezes acontece a confusão. “Sim, por vezes as pessoas confundem-me com uma funcionária pública” – ri Maria Marques.

O respeito das pessoas atendidas por quem as atende, não fica por aqui. “Coisa caricata é quando por qualquer razão tenho que cancelar uma marcação há pessoas que levam a mal. Chegam a perguntar porque razão fico doente no dia da marcação como se fosse eu a escolher quando adoeço” – lamenta.

Os serviços de apoio ás populações, estende-se porém a outros cenários. “O Gustavo e a Marta por exemplo estão no apoio à maternidade, aos infantis e juvenis no capítulo familiar. Nós temos uma parceria com outras instituições como a LEAP ou a IRMO que trabalham com a infância desde o útero materno até à idade dos cinco anos. Eles fazem várias sessões

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com children centres (centros infantis) que muitas vezes estão associadas ou dentro das escolas primárias onde dão apoia ás mães e ás crianças. Conseguem que as mães vão estudar inglês e também resolvem alguns subsídios. Se houver uma mulher que diga «estou grávida» já entre neste projecto chamado «early years» (Idades tenras). Nos serviços prestados, temos o apoio para a inscrição para a creche naquilo que são as horas grátis que o Governo ajuda para a escola da criança ou para que tenham direito a almoço. Tudo que envolve a criança e a mãe até ao ponto de haver mães solteiras que precisam de apoio psicológico e de habitação e eles fazem tudo isso naquilo que podem e devem ajudar” – revela Maria Marques.

Nas bocas da Comunidade, nasce muito a acusação de famílias que decidem ter filhos apenas para fonte de recurso aos apoios financeiros do Estado. Será verdade? “Não, não acho” – afirma Maria Marques. Anos atrás, uma mãe solteira com três ou quatro filhos poderia viver sem trabalhar com os apoios governamentais mas de há três anos para cá isso tornou-se impossível devido aos cortes nos apoios. Chegou a um ponto que já não justifica ter filhos para não trabalhar e eu nunca tive ninguém que me dissesse que iria ter um filho só para pedir benefícios. O que se vê mais são os relacionamentos que acabam e que deixam as mães e as crianças numa posição fragilizada a precisar de apoio. Não sabemos se o que fazem é com um segundo sentido. Nós não fazemos investigação e temos que acreditar naquilo que as pessoas nos dizem e provam. Não somos polícias e isso não nos compete investigar. Temos que acreditar naquilo que a pessoa nos diz” – diz maria Marques.

Maquilhagem

Quem trata da confirmação dessa informação é geralmente o Centro de Emprego (Job Centre) “não somos nós. Eles é que vão saber se há ou não mais pessoas a viver na casa. Nós não temos sistema para essa informação. Não estamos ligados directamente ao Council ou ao Job Centre. Nós trabalhamos o cenário que a pessoa nos dá” – informa.

Há ainda espaço para quem se declara solteira estando a viver em união de facto e por essa via enganar o sistema de apoios financeiros. Perguntamos se isso é possível. “Não. Tenho outro tipo de situações que me aconteceu duas vezes. Um casal a viver na mesma casa sendo que a senhora foi vitima de violência por parte do marido. Houve inclusivé relatório policial e referência do crime. Por incrível que pareça, depois de 24 horas detido o agressor regressou a casa ficando a residir com a vitima e os filhos lá dentro e a dizer que não saia da casa. A polícia disse que não podia fazer mais nada e que uma vez que o nome constava no contrato de arrendamento ele assumia o direito de permanecer na habitação mesmo sendo o agressor. Entretanto a senhora falou comigo dizendo que era ela  quem trabalhava e alimentava os filhos. A partir do momento que houve o caso de agressão e separacao do casal teoricamente eu tratei do pedido para o “tax credit” e o “housing bennefit” para a senhora para apenas metade da renda da casa (a outra metade estava a ser coberta pelo marido) e consegui metade da ajuda da casa mas o “tax credit” foi recusado porque. Era o caso «ping-pong» já que a polícia dizia que não podia tirar o agressor da casa uma vez que havia três quartos, um p para a mãe,  outro para o marido e outro as crianças. Havia quartos para toda a gente e o “tax credit” levou em consideração que o marido estava a viver dentro da habitação e por essa razão recusou esse apoio. Foram considerados casal por estarem debaixo do mesmo teto e o apoio foi recusado. Foram dois casos iguais.

Em breve, é possível que algumas coisas se alterem. Com um financiamento assente fundamentalmente na the BIG LOTTERY FUND, a Stockwell Partnership espera agora ter que encontrar outras soluções. “A instituição que financia  a minha parte do projeto vai faze-lo por mais dois anos e três meses. A partir daí, segundo as regras, não nos pode continuar a financiar porque fica esgotado o tempo de apoio a que a instituição tem direito. Todos os anos temos uma inspecção ao nosso trabalho por parte de quem nos financia que confere toda a documentação e fomos informados que esta será a última vez que somos financiados como forma de dar oportunidade a outras instituições que também elas são candidatas aos apoios financeiros. Mesmo sabendo que temos tudo acertado e comprovado com excelentes resultados, as regras obrigam a uma rotação entre as instituições” – esclarece Maria Marques.

Serviços de tradução

Nos relatórios sobre as diversas comunidades em Lambeth, a Comunidade Portuguesa aparece como aquele que mais precisa de apoios à integração por se tratarem de pessoas que não falam a Língua, não socializam com outras culturas mas que não podem continuar a ser financiadas por este fundo por se ter esgotado o tempo e o conjunto de oportunidades rotativas. “dentro de dois anos e três meses fecham-se os apoios para a Comunidade Portuguesa em Lambeth através da THE BIG LOTTERY FUND” – revela Maria Marques para referir que os cortes financeiros que se alastram para todas as razões também chegam ás instituições de Solidariedade Social. Mesmo o Citizens Advice sofreu cortes financeiros que estão a atingir todas as instituições no Reino Unido. “O nosso Director está a estudar outras fontes de financiamento mas por enquanto não há ainda confirmação de que possam ser aprovados” – revela sob a suspeita de que findo este prazo possa ter que abandonar o espaço onde trabalha há duas décadas. “Seria importante encontrar outras soluções porque para muitas pessoas é impossível recorrer aos mesmos serviços no sector privado” – lamenta para finalizar: “Temos Portugueses em Lambeth em estado de pobreza”.

PN/Londres.

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One Reply to “Stockwell Partnership em parceria com a Comunidade de Língua Portuguesa a Sul de Londres”

  1. Quanto a mim, è a melhor representante da nossa comunidade em Londres, nunca houve um momento em que precisase da ajuda da Mrs. Maria Marques, e que esta nao o fizesse. Faziam falta muitas Maria’s na nossa comunidade neste pais ao inves da inveja e matreirise entre o nos…. E claro que seria uma mais valia ter no board, um Portugues que ajuda se a comunidade e a Maria neste projecto de apoio a comunidade . Como sempre à muitas bocas a dizer que fariam/seriam melhor, mas na practica attitude nao e coragem para assumir o cargo nao hà….

    Obrigada Maria Marques

    OBRIGADA MARIA MARQUES

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