Castelo gastronómico português a Sul de Londres
Friday, December 6, 2019.

Hélder Sousa seguiu os passos de uma prima quando veio para Londres em 1998 com apenas 19 anos. Antes, quando tinha apenas quinze anos, deixou o lugar onde nasceu no Lugar da Granja em Ponte da Barca na Província do Minho, e rumou ao Porto para onde foi trabalhar num snack bar. Ali, daria os primeiros passos daquilo que mais tarde seria um investimento pessoal que o levaria ao empresariado em Londres. Quatro anos foi o limite de tempo que levou para aprender a conhecer o Porto e arredores.

Sala de restaurante

Chegou a Londres como a maioria das pessoas: a lavar pratos, neste caso no Gurfunkels. Dois meses depois, passou a integrar a equipa das saladas e sobremesas. No Gurfunkels, haveria de ficar por quatro anos na equipa de cozinha e por aí, chega a segundo chefe.

De Ponte da Barca, haveria de arrastar o seu irmão Filipe Sousa. De resto, os dois irmãos haveriam de ficar juntos até hoje num único destino. Pouco depois de deixar a terra natal, Helder Sousa chama o irmão Filipe e mais tarde haveria de repetir o desejo em Londres. Estava na capital britânica há um mês quando decidiu chamar o irmão. “Desde que ele começou a andar que estamos juntos. Se ele não viesse para Londres seria eu a regressar a Portugal. Quando lhe perguntei se queria vir, a resposta foi imediata: «Vou já»”, recorda para o Palop News. Com uma diferença de dois anos de idade, os irmãos acabariam por permanecer juntos e chamar ainda mais família. “Somos sete irmãos e seis estão em Londres” – revela Helder Sousa.

Quando Filipe Sousa chega a Londres, encontrou emprego na mesma empresa que o irmão e assim, o Gurfunkels acabaria por albergar os dois irmãos. O mais novo ficaria nove anos enquanto o mais velho, apenas por quatro.

Sala, perspectiva para eventos

Zangado com a empresa, Helder Sousa procura emprego noutro segmento de actividade. “Fui para uma empresa de limpezas e aprendi a lavar a seco; alcatifas, cortinados e por aí fora. Entendi que não era o meu ramo e pensei voltar às minhas lides de restauração e culinária” – diz.

Já o irmão Filipe Sousa haveria de largar o emprego para o primeiro investimento nove anos decorridos em Londres. Helder haveria de largar o seu terceiro emprego para a abertura do Restaurante Castelo em West Norwood a Sul de Londres. Antes porém, Helder precisaria de ganhar mais experiência. Foi trabalhar para um restaurante inglês especializado em cozinha italiana junto da Tower Hill. Esta experiência, haveria de ser a solução para o restaurante que iria abrir mais tarde. “Aprendi a trabalhar as pastas, os risotos, o bechamel e o tradicional fish and ships e a abrir o peixe que chegava fresco” – recorda.

Insatisfeito com o que sabia, Helder Sousa decidiu entrar na universidade para cursar cozinha. “Tentei a Universidade de Westminster mas o tempo de espera era muito longo e eu não podia perder tempo”. Por essa razão, escolheu a universidade Thames Vale University. Nesse meio tempo, continuou a trabalhar no restaurante inglês especializado em comida italiana em Tower Hill. Neste restaurante, acabaria por ficar três anos enquanto o irmão, continuava no Garfunkels.

Quando chega à universidade ainda não tem domínio absoluto sobre a Língua Inglesa mas o “professor percebeu a minha vontade e os conhecimentos que eu tinha de cozinha e ajudou-me em todas as situações. Hoje sou diplomado por uma universidade inglesa graças a um chefe bastante conhecido em Londres e venci três níveis”.

Mercearia, balcão

A universidade haveria de ficar para trás quando em Hammersmith o pai de um cunhado lhe falou de um estabelecimento para vender em West Norwood. Seria esta a conversa que iria mudar não apenas a vida de Helder e Filipe mas também de Alexandre Sousa, outro irmão que Helder «encomendou» a Portugal. Também Alexandre se haveria de revelar de particular importância nos investimentos entretanto feitos.

“Vim ver o estabelecimento que se mostrava pouco digno. Precisava de muitas obras mas a minha experiência disse que eu saberia fazer do espaço um restaurante digno” – diz Helder Sousa para acrescentar: “Muitas pessoas tentaram desencorajar-me mas eu continuava a ver o potencial do lugar. Desde Croydon até Brixton não havia um único restaurante português e eu percebi que tinha força para concretizar o projecto”.

Acabaria por comprar o espaço em 2005 e começar as obras de adaptação. Com a experiência da cozinha inglesa e italiana a que somava mais a experiência em Portugal, abriu o Castelo Restaurant que hoje a comunidade local conhece. Na abertura, a ementa tinha da gastronomia portuguesa os pratos mais simples.

Segunda sala. Espaço intimo.

Para abrir o restaurante, havia um «senão» que foi preciso vencer. “Eu nunca tinha trabalhado a cozinha portuguesa no contexto de restaurante. Hoje faço quase tudo mas na altura era o meu deficit” – confessa. Quando abriu o Castelo Restaurant, as referências da gastronomia portuguesa eram as menos elaboradas. Os picados, carne de porco alentejana, bacalhau no forno e pouco mais. A solução, passaria por uma cliente que informa ter a mãe em Lisboa disponível para vir para Londres de profissão cozinheira. “Não hesitei e disse à minha cliente para mandar vir a mãe e que teria emprego quando cá chegasse”. Foi o que aconteceu. A D. Branca (Branca Fortes), como todos a conhecem, entrou ao serviço um ano depois da abertura e por lá se mantém até agora. “Foi quando a Branca chegou que a nossa cozinha mudou até aos dias de hoje” – diz Helder Sousa.

Estava aberto o primeiro estabelecimento na Norwood Road em West Norwood. Hoje, contam-se nove estabelecimentos portugueses na rua para lá de outros estabelecimentos que não sendo geridos por portugueses, têm produtos portugueses. Tudo num espaço inferior a mil metros de rua.

Aos poucos, a comunidade de Língua Portuguesa a Sul de Brixton, percebeu a existência de um restaurante e rapidamente se mobilizaram para a gastronomia ali oferecida. Falta porém um outro negócio no local. A comunidade deslocava-se para o restaurante mas tinha que continuar a subir para Norte para as compras de mercearia. “A mercearia aparece num momento que eu não sabia se era mercearia, se era talho, frangos assados take way ou outra coisa. No fundo, aparece a pedido dos clientes que assim numa única deslocação, podem almoçar ou jantar e ao mesmo tempo fazer as compras para casa. Eu estava disposto a fazer qualquer coisa a pedido dos clientes que vinham ao restaurante e assim deixaram de precisar de continuar a deslocação até Stockwell” – diz Helder Sousa.

Distante do restaurante em pouco mais de 50 metros, a mercearia acabou por também ela ser um poiso para quem fala português no local. “Não é um negócio muito lucrativo mas atende os clientes que nos visitam e uma comunidade em constante crescimento.” – refere.

Área de mercearia

Na verdade a mercearia era para ser na porta ao lado do restaurante que na época era uma casa de vinhos. Gorado que foi o negócio, a mercearia Castelo ou, dito em inglês, Castel Delicatessen, surgiria sete anos atrás num ponto de passagem de quem sai da estação de comboios no enfiamento do mesmo corredor.

Apesar de se tratar de uma empresa familiar, o conjunto dos dois estabelecimentos conta com onze pessoas ao seu serviço. “É uma empresa familiar. Eu e o meu irmão passamos aqui mais de trezentos dias por ano e depois este ambiente estende-se às pessoas que trabalham connosco e até aos próprios clientes. Os clientes acabam por se sentar connosco na mesa independentemente da língua que falam da sua cor ou credo” – diz o empresário.

As raízes geográficas da família, acabam também elas por ser uma referência junto da comunidade. “É aqui que decorrem os jantares dos Amigos do Minho” – grupo de minhotos que se reúne na mesa frequentemente e escolhe o Restaurante Castelo para os seus eventos. Mas não se fica por aqui o ambiente que a família Sousa transporta para Londres. As sessões únicas de concertinas e desgarradas, fazem deste restaurante uma referência única. “Não há em toda a cidade de Londres outro espaço que tenha as desgarradas à moda do Minho como temos aqui” – diz o empresário numa clara alusão ao escárnio e mal dizer que diverte os clientes. Mesmo os que não falam português, percebem no ambiente o que se passa e mesmo que não entendam acabam por se rir por ver os outros rir ao mesmo tempo que aproveitam o ambiente musical.

Pela sala, passaram já vários artistas que se deslocam de Portugal. Fernando Correia Marques ou Nel Monteiro,  são apenas dois dos nomes que Portugal bem conhece e que passaram pelo Castelo Restaurant. Os dois irmãos que gerem o espaço, dão também eles uma “perninha” nas desgarradas. “Gosto de uma «palhinha». É a nossa raiz a fazer lembrar o tempo em que as pessoas iam trabalhar nos campos e aproveitavam para cantar como forma de ajudar a passar o horário da jorna” – lembra Helder Sousa que relaciona o ambiente musical do Minho no contexto das desgarradas com o cante Alentejano, também ele característico de quem trabalhava nos campos de agricultura.

Pessoas de outras nacionalidades e que residem no local, acabam também elas por se tornarem apreciadoras do estilo musical num espaço que já recebeu Maria Celeste, Augusto Canário, Cachadinha e outros ícones portugueses do género. “Temos clientes que não são do Minho mas vêm cá e gostam de participar. Da Madeira, de Viseu e outros pontos de Portugal que vivem em Londres e que nos visitam nesses dias festivos” – diz Filipe Sousa.

Na aventura da abertura do restaurante, Helder Sousa era um jovem acabado de casar. “Os primeiros cinco anos perde-se a vida própria. Todas as pessoas que já começaram sabem do que estou a falar. É complicado” – diz a lembrar os tempos em que a família estava em casa enquanto os dois irmãos tinham que cumprir o horário das sete da manhã até ao fecho à meia-noite.

O dia começa com o pequeno almoço e o «English Breakfast» é a estrela das manhãs de todos os dias. Para lá disso, o menu apresenta o aprendizado da cozinha italiana com pastas, lasanhas, risotos, e pratos do dia. Tudo muda ao fim de semana.

À Sexta-Feira, a estrela da cozinha é a dobrada e ao Sábado e Domingo o cardápio cresce no saber. “Sábado é dia de Feijoada e Domingo é o dia do cozido à portuguesa mas temos também outras iguarias. Cabrito, leitão assado, polvo ou bacalhau à lagareiro e depois toda a espécie de peixes e carnes” – diz Filipe Sousa.

O espaço, é ainda visitado por amigos que se deslocam de Portugal em visita a Londres. “Por vezes passam os amigos de Ponte da Barca, colegas que vivem na Alemanha e que nos visitam além de familiares que por cá aparecem” lembra.

Na garrafeira, só Portugal aparece já que todos os vinhos são portugueses. Dão, Douro, Estremoz, Setubal, Melgaço, Alvarinhos, Ponte da Barca e toda uma panóplia de vinhos portugueses estão disponíveis diz o empresário que hoje tem em Londres praticamente toda a família.

Seria Alexandre Sousa, o ultimo a chegar que iria assumir as obras dos dois espaços. “Sempre que fazemos uma remodelação é o Alexandre que as faz” – diz Helder com visível orgulho para acrescentar: “O Alexandre veio muito jovem começou na hotelaria e depois dedicou-se à construção. É ele que faz de tudo nas obras, ele é o «patrão» das obras” – conclui.

A fechar, decidimos questionar aquela que nos parece a razão de reclamação na demora que o atendimento tem. “Comida boa não se faz de forma rápida”.

Ficamos esclarecidos.

PN/Londres

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