Um dólar e um beijo fazem pão de queijo em Londres
Saturday, August 24, 2019.

Alessandro Faria saiu de Minas Gerais, terra do queijo e pão de queijo e foi viver para S. Paulo onde encontrou emprego numa universidade no departamento de fotocópias (Xerox). Quis um dia que um cliente sem dinheiro pedisse para pagar com um dólar, decisão que só poderia ser tomada pelo patrão. Embora relutante, o patrão aceitou o dólar com o qual não quis ficar tendo-o oferecido ao empregado.

– Ofereceu-me o dólar para me dar sorte – recorda Alessandro Faria, vinte e quatro anos depois num bar no centro de Londres.

Como estava já próximo da hora de saída, 10 da noite, Alessandro foi liberado para sair do emprego um pouco mais cedo. Dirigiu-se para a paragem do transporte onde estava apenas uma pessoa. Rosangela que hoje, se chama Rosangela de Faria.

– Ainda conservo esse dólar guardado – revela Alessandro.

Rosangela não esconde a recordação do momento. “Quando o vi, pensei em casamento e a minha preocupação era saber se ele seria ou não casado. Olhei para ele, estava de cabeça baixa a fumar (nessa época ele era fumante) e na minha cabeça apareceu um casamento. Olhei para ele e me apaixonei. Ainda não tinha visto o dólar. Cheguei a pensar que ele fosse casado. Ele entrou no ônibus antes de mim. Era Inverno e alguma coisa grudou na minha bota. Tentei libertar o plástico preso na minha bota e quando dei por mim, estava sentada no lado do Alessandro” – recorda. Já Alessandro ressalta a curiosidade. “Não havia ninguém no ônibus excepto nós e o motorista e a Rosangela sentou do meu lado” – ri a contar.

Já pelo caminho, Rosangela descobriu que o seu relógio tinha parado e decidiu não ficar sem saber as horas. “Moço, pode-me dizer as horas por favor? “

Ao longo de dez quilómetros, Alessandro ganhou coragem e antes de sair, pediu a Rosangela o número de telefone. “Como os códigos da área eram os mesmos, eu só tinha que fixar quatro dígitos” – diz Alessandro.

Entrou num café, pediu uma cerveja e uma caneta. Apontou os quatro dígitos na mão, pagou a cerveja e saiu. Da cerveja, sabemos que ficou intacta. O mesmo não aconteceu com os protagonistas desta história que hoje têm dois filhos e um projecto empresarial em Londres que não para de crescer.

Vinte e quatro anos depois, o dólar e o relógio são ainda património da família.

Uma semana depois do primeiro encontro, o telefone de Rosangela tocou. Do outro lado da linha, Alessandro perguntou: “Lembra de mim?”

Claro que Rosangela lembrava. Só podia lembrar tal a memória do impacto do primeiro encontro.

Depois, seria o continuar da história que os uniu longe do Brasil. Rosangela veio para Londres e só mais tarde veio Alessandro. A primeira preocupação de ambos foi aprender a Língua e a segunda enfrentar as dificuldades de quem vem viver para um país distante sem conhecer a cultura, a geografia e os hábitos de vida.

Rosangela começou como engomadora e quando chegou a Londres, Alessandro começa pela porta de baixo lavando loiça num restaurante.

Quando decidem vir para Londres estavam noivos. Acabariam por casar em Londres depois de seis meses na capital Britânica em 1999.

Alessandro decide começar a aprender a cozinhar a descobre a sua vocação para a cozinha. A porta de entrada nesta aventura, haveria de ser num restaurante italiano onde trabalhavam portugueses. “Aprendi muito sobre cozinha italiana com os portugueses com quem trabalhei. O restaurante era canadiano e servia principalmente lanches. Entretanto, o patrão decidiu fechar o restaurante e levar todos os funcionários para outro restaurante”. Neste caso, o restaurante italiano e foi aí que Alessandro aprendeu não só a cozinha italiana mas também a portuguesa.

Mais uma vez, neste restaurante, Alessandro começa pelo posto mais baixo lavando loiça. Havia onze italianos que se foram embora e Alessandro ficou com os portugueses que ali trabalhavam durante dois anos e meio.

Mais tarde, Alessandro insiste na mudança e muda de cozinha. Mais uma vez, a porta de entrada é a lavar loiça numa cozinha judaica. “Durante sete anos eu limpava e ajudava o judeu na cozinha e ia para as festas como casamentos ajudar como empregado de mesa (garçon)”.  Sete anos depois, a Direcção decide encerrar uma das duas cozinhas e confrontaram os cozinheiros judeus para assumir a cozinha. Ambos recusaram e esta recusa, terá sido a grande oportunidade para o brasileiro que já tinha passado por um restaurante canadiano, tinha aprendido sobre cozinha italiana e portuguesa. “Perguntaram se eu queria assumir a responsabilidade e eu aceitei. Eu fazia a limpeza da cozinha e da escola e ajudava na cozinha” – revela Alessandro Faria para acrescentar –  “Sempre que o cozinheiro tirava a sua folga era eu que o substituía. O patrão viu que eu estava a dar conta do trabalho e decidiu apostar em mim. Falei com a Rosangela e concordamos que não havia razões para não arriscar”. Com sete anos de experiência e partilha na cozinha judaica, Alessandro teria que enfrentar nova dificuldade quando passou a dar ordens e deixou de as receber no espaço da cozinha. “Foi difícil mas consegui e ainda hoje sou o responsável máximo pela cozinha e assumo que tenho melhor conhecimento do que os próprios judeus que trabalham comigo nas questões de cozinha judaica”. Para todos os efeitos, Alessandro assume que “não é fácil trabalhar com judeus até que se estabeleça a confiança” assunto que hoje está já ultrapassado. Para evoluir, o casal investiu sobretudo em livros e cursos para aprimorar o desempenho profissional. Desse conhecimento, outros sonhos haveriam de nascer.

“Nós sempre quisemos ter o nosso próprio negócio e se possível em Londres” – revela Alessandro que reclama da estratégia da comunidade brasileira. “Quando um brasileiro abre um negócio, geralmente há outros a abrir negócios semelhantes. Como em Londres existem brasileiros por todo o lado, decidimos criar uma coisa diferente a partir da minha própria experiência”.

Alessandro estava com um volume físico excessivo e precisava de emagrecer, a medicação porém não estava produzir os resultados esperados e o próprio decidiu deixar de ingerir glúten. Do azar, fez a sua sorte e pela força do trabalho e dos sonhos, a alimentação sem glúten tornou-se um remédio e ao mesmo tempo um negócio.

Antes de começarem a vender, o casal investiu em testes. O primeiro produto a desenvolver foi o pão de queijo que obrigou a desenvolver a certeza de que era possível panificar com a garantia absoluta de que o produto final era absolutamente isento de glúten. “Quanto ao pão de queijo, o polvilho em si não tem glúten mas no nosso caso temos 100% de certeza que é glúten “free” porque nós temos um laudo da empresa no Brasil onde compramos o polvilho que não é embalado onde se embala por exemplo o trigo. É importante que a embalagem do polvilho seja feito sem a presença da farinha que essa sim tem glúten. O mesmo se passa em relação à cozinha que tem que estar absolutamente isenta de glúten para garantir a veracidade do rótulo”. Neste caso, o fornecedor de polvilho teve que oferecer garantias que a embalagem é feita sem a contaminação de glúten quando na presença de outros produtos.

Em casa, Alessandro e Rosangela começaram a cozinhar para consumo próprio e foi quando um amigo os visitou que a ideia comercial cresceu. “Um amigo da Marinha Brasileira estava destacado em Londres e fez uma visita lá em casa quando provou o nosso pão de queijo”. Estava lançado o negócio. O amigo gostou e ofereceu-se para levar a novidade para o serviço onde estava instalado. “Cheguei a levar mais de oitocentos pães de queijo” – lembra Alessandro.

A partir daí, começaram a vender aos amigos não sem antes libertar as licenças do Council (Município). Com o tempo, começaram a pensar alugar um pequeno espaço para abrir um pequeno negócio a partir da cozinha já depois de estarem licenciados. “O que fazemos, gostamos de fazer bem feito na primeira tentativa” – diz Rosangela.

Em pouco tempo, o casal já fornecia outros estabelecimentos comerciais mas antes, tiveram que vencer outro obstáculo. A rotulagem dos produtos. “Começamos do zero com as legendas sobre o valor nutricional que é feito a partir de técnicos credenciados bem como os testes para os prazos de consumo. Ainda hoje temos alguns dos nossos primeiros produtos congelados para testar os prazos de validade. Ainda temos congelada uma remessa do primeiro doce de leite que fizemos para medir resultados no futuro. Datados para certificar a validade das datas que damos aos nossos produtos” – revela Alessandro para esclarecer – “Antes licenciamos a etiqueta toda a partir do zero trabalhando em casa. Tudo que fazemos é testado para ver se dá certo. Elaboramos a etiqueta várias vezes e contratamos quem faça a tabela nutricional”. Ao cliente, a marca Alezzolli assegura um prazo de seis meses para consumo dos seus produtos que hoje inclui um catálogo em crescimento. Doce de leite com coco, doce de abóbora, queijo fresco, coxinhas e claro, pão e bolas de queijo. Tudo é feito numa cozinha isenta de glúten. “Nós não temos farinha na cozinha. Desenvolvemos a cozinha glúten “free” com o pão de queijo que é o carro chefe da casa”.

Tudo começou em 2016 quando abriram a cozinha licenciada e começaram os testes. “Havia dias de gastarmos mais de trezentas libras em matérias primas para testar os produtos e muita dessa produção acabou no lixo até termos a fórmula certa. Foram muitas horas de trabalho e vários cursos. “De onde eu venho, a minha avó fazia o queijo e a diferença é que em Londres não temos o leite puro para fazer o queijo” lamenta Alessandro.

Já em 2019, três anos depois de terem começado, chegou o momento de dar o grande salto e as negociações começaram com um conhecido estabelecimento no Queens Market na Queens Way, paredes meias com o Hyde Park no coração de Londres. Foi assim que acabaram a negociar o espaço onde antes estava a Casa Brasil que hoje assume o nome de Rosangela Grocery e onde se vendem diversos produtos de mercaria portuguesa e brasileira.

Aquilo que começou por ser uma experiência de emagrecimento, tornou-se uma marca de produtos alimentares isentos de glúten vocacionado para o fornecimento a outros estabelecimentos e ao mesmo tempo um estabelecimento de porta aberta vocacionado para o público. “Trabalhamos muito e somos pessoas honestas. Quando as pessoas têm equilíbrio na vida, têm tempo para pensar. Temos projectos para o futuro. Melhorar os nossos produtos e oferecer qualidade é a nossa maior ambição” – diz Rosangela.

Com dois filhos que “absorvem muita da nossa energia”, o casal continua a alimentar o sonho de crescimento. Por essa razão, continuam a procurar outros espaços onde possam alargar o mercado e desenvolver novos produtos. As possibilidades da marca são imensas.

Os sonhos, acalentam abrir a marca Alezzolli em ambientes diferentes daqueles que já foram conseguidos até agora. Um género de espaço que em Londres não existe. “Queremos oferecer o mesmo ambiente do Brasil em Londres e se possível ir um pouco mais além. Acreditamos que possa haver mais nem que seja apenas pelo sistema de franquia. O nosso projecto é crescer com qualidade nos produtos. Não queremos crescer como muita gente que quando cresce um pouco olham apenas para dinheiro. Queremos continuar a olhar para o mais importante e isso é a qualidade do que fazemos. Queremos sobretudo conhecer a opinião do cliente” diz Alessandro para quem a cozinha é a sua segunda paixão. A primeira, será seguramente a história de um dólar e um relógio sem horas.

O êxito, tem vindo a ser perseguido essencialmente com muito trabalho. “O pouco tempo que tenho depois do meu trabalho na cozinha judaica, é o que tenho para os nossos produtos. Eu só preparo os nossos produtos depois de sair do emprego. Por vezes saio do emprego às cinco da tarde, vou fazer compras e chego na nossa cozinha pelas sete da noite e ainda vou fazer pão de queijo. Ponho para congelar e depois fazer queijo. Tem dias que saio da cozinha depois das dez horas” – diz Alessandro.

A equipa fica completa quando Rosangela faz as vendas, o marketing, o contacto com o cliente e toda a restante administração da empresa. “Antes de termos a loja, ainda havia ajuda na cozinha. Agora com a loja, estou sozinho na cozinha – diz Alessandro que reclama essencialmente da falta de tempo”. Os dois filhos, já reclamaram mais “mas começam a entender que o que fazemos é também para eles”.

“O meu marido tem uma paixão pela cozinha. Eu seria incapaz de o imaginar a trabalhar noutra actividade que não seja a cozinha” diz Rosangela.

Quanto ao nome Alezzolli, resulta da fusão do nome do próprio Alessandro e o nome do seu avô. Um sonho que se tornou numa homenagem. Quanto aos produtos da marca, o próprio website revela a lista de estabelecimentos onde podem ser encontrados em Londres.

PN/Londres

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