Bela Lisboa é nome de restaurante a Norte de Londres
Wednesday, November 13, 2019.

Situado em Barking onde reside uma extensa comunidade de falantes de Português, o restaurante Bela Lisboa assume-se como a bandeira das gastronomias Portuguesa e Afro-Portuguesa na capital britânica.Tudo começa quando a Santomense Kinilza Graça conhece Elias Lisboa nascido em Angola nas ruas de Londres. Ao lado da barbearia, um restaurante que levou ambos a verem-se todos os dias e a cumprimentarem-se sempre que se viam. Afinal eram vizinhos.

Na sociedade que a Kinilza tinha no restaurante Sabor e Arte houve uma separação com a saída de uma das sócias e a Kinilza ficou sozinha. Estando a kinilza há pouco tempo em Londres e com algumas dificuldades na Língua Inglesa, “pediu-me ajuda. Eu ajudei naquilo que podia e sabia nas questões da burocracia do Estado” diz Elias Lisboa sócio do restaurante Bela Lisboa.

“Ela é cozinheira mas tinha dificuldades em questões como lidar com o senhorio ou as licenças de álcool, food and Safety, health and safety, etc., etc., etc.. Na altura era a sócia da Kinilza que tratava desses detalhes e quando esta foi embora a Kinilza ficou um pouco sem chão e como eu estava ali ao lado acabamos por falar enquanto vizinhos” – diz Elias com satisfação.

Elias Lisboa não é pessoa de frequentar cafés mas conhecia a família dela há muitos anos e prontamente a ajudou naquilo que é a burocracia relativa ao restaurante que esta tinha na altura ao lado da barbearia onde Elias Lisboa é sócio. “A Kinilza ainda está umbilicalmente ligada ao Sabor e Arte mas é aqui no Bela Lisboa que está empenhada no momento até pela dimensão do espaço que é substancialmente maior que o Sabor e Arte” – revela.

Elias Lisboa começou a tratar das questões da burocracia britânica desde muito cedo. “Quando chegavam novas pessoas eu ajudava no preenchimento de papéis ou a procurar casa, a inscrever as crianças na escola ou a tratar com o «Job Centre» (Centro de Emprego). Hoje conheço muita gente na comunidade graças a esse voluntariado que fui fazendo para ajudar quem chegava” – recorda Elias Lisboa. Essas pessoas actualmente são clientes do restaurante. Na época, Elias Lisboa estava a semear sem saber através da sua força de voluntariado espontâneo e solitário.

Hoje, aos 33 anos de idade, Elias sente os seus projectos de vida a estabilizar através dos negócios que gere tendo no restaurante Bela Lisboa a «menina dos seus olhos».

Nascido em Angola, Elias foi para Portugal com apenas um ano e mais tarde, quando os pais decidiram vir para Londres, enquanto menor, veio a acompanhar a família. Oito anos atrás, voltou a Angola, viagem que haveria de lhe criar sonhos que por força do Bela Lisboa tiveram que ser adiados.

A sua viagem a Angola deu-lhe uma realidade diferente daquela que tinha construído na Europa. “Foi diferente. Foi um choque mas depois gostei. Uma realidade e um conceito diferentes de ver pessoas pobres mas felizes. Volto sempre que posso. Vi as pessoas levantarem cedo para irem buscar pão e depois as crianças irem para a escola fazendo o percurso a pé. O cheiro da terra para mim foi estranho mas fiquei contente por ter agora essa consciência” – recorda Elias Lisboa que já alimentou a ideia de “regressar a Angola definitivamente mas foi antes do Bela Lisboa estar concretizado. Quatro anos depois de ter lá estado, pensei em ir para lá para dar o meu contributo ao Pais e fazer algo diferente. – revela. Nessa época, já Elias Lisboa estava associado ao negócio de uma barbearia em Londres. “Entrei na sociedade com um amigo na barbearia e estou com ele há quatro anos e depois apareceu esta oportunidade do Bela Lisboa” e assim deixou cair o sonho do regresso a Angola.

Sem ser barbeiro ou ter qualquer vocação para a lide dos cabelos, Elias abraça a barbearia por questões de amizade. “O meu amigo e agora sócio é uma pessoa de talento e convidou-me para entrar no projecto da barbearia mas eu estava com planos de regressar a Angola. “Quando ele me disse que não tinha mais ninguém para criar com ele esse projecto e que precisava da minha ajuda decidi aceitar. Como sempre nos demos bem e sendo ele uma pessoa muito conhecida e talentosa eu decidi apostar a abracei o projecto com ele” – revela.

A viver em Lisboa, Elias optou pelos estudos e pela sua vocação para o desporto que se mantém até aos dias de hoje embora em diferentes estilos de desporto como veremos mais à frente.

Londres, aparece como um sonho de carreia no futebol profissional onde teve algumas experiências. Passou pelo Wimbledon onde a sua contratação acabou frustrada. “Na altura o meu agente estava a pedir muito dinheiro e não houve acordo com o clube. Neste processo o atleta não tem voz activa. O agente falou por mim e não tive oportunidade de intervir na questão dos valores” e por essa razão o negócio não foi feito. Em Portugal, teve a sua experiência no mundo do futebol no Odmirense no Alentejo. “A vinda para Londres fez a carreira no futebol passar de raspão” – afirma Elias Lisboa que nunca mais olhou para o futebol com o mesmo objectivo.

O futebol deixou assim de ser uma prática habitual mas o exercício físico não ficou esquecido. Hoje, é praticante da arte marcial Ju Jitsu. “Serve para aliviar a carga mental. Preciso de estar bem com a mente para dar vazão ao trabalho” – brinca Elias Garcia.

Antes de entrar no mundo dos negócios, Elias licenciou-se em «Business and Manegement (Negócios e Administração)”. Antes trabalhou nas limpezas, num hotel, foi jardineiro, motorista e durante anos trabalhou no «Royal Mail» (Correios).

Kinilza Graça nasceu em S. Tomé e Príncipe tendo ido para Portugal com apenas doze anos de idade e ali permaneceu por vinte anos. Em 2013, decidiu vir para Londres encontrando emprego no restaurante Portvgalia, curiosamente o mesmo espaço onde agora tem o Bela Lisboa. “Saí do Portvgalia e fui trabalhar para um hotel mas por pouco tempo. Acabei por voltar ao Portvgalia até este fechar e foi nessa altura que decidiu, em sociedade, abrir o restaurante Sabor e Arte a que se encontra ainda ligada por força do “lease” do espaço.

A sua primeira carteira profissional tem a data do ano 2000. A cozinha portuguesa, vem do facto de ter estudado hotelaria em Portugal. Já o mesmo não se pode dizer da cozinha africana. “Aprendo com a minha mãe, as minhas tias mas sobretudo com a minha bisavó que me fez nascer o gosto pela cozinha desde os cinco anos” – diz ao Palop News.

Preferência por pratos? “Não tenho. Não sou propriamente fiel a um prato ou outro. Sou fiel à cozinha no seu todo e o amor à profissão e ao trabalho” – revela.

É quando Kinilza Graça abre o restaurante Sabor e Arte que se torna vizinha da barbearia de Elias Lisboa e dos cumprimentos diários, nasce a relação de amizade que leva Elias a ajudar Kinilza com as questões legislativas britânicas.

Para trás, o restaurante Portvgalia que agora era um espaço albanês que haveria de durar cerce de meio ano. “As coisas parecem não ter corrido bem para os albaneses que estiveram cá e a Cindy, nossa funcionária, disse-nos que o espaço estava fechado e eu falei com o senhorio que conhecia de anteriores contactos” – diz Elias Lisboa que acabou a contactar o senhorio. “Tivemos uma reunião e chegamos a acordo” e o sonho nasce entre os dois sócios do Bela Lisboa e assim Kinilza Graça volta para o espaço que tão bem conhecia.

Depois de ver fracassar um projecto de gastronomia portuguesa e albanesa, Elias Lisboa confessa que teve alguma apreensão. “Confesso que pensei na possibilidade de alguma coisa não correr bem mas eu acredito nas minhas capacidades e força de trabalho” – confessa.

Em Maio de 2018, os dois sócios decidem avançar. Kinilza Graça trouxe a garantia de um profundo gosto e conhecimento do espaço e da cozinha que haveria de fazer a ementa. Quanto a Elias Lisboa, além de trazer as suas capacidades de gestão e a sua força de trabalho, trouxe também a grelha de contactos que fez ao longo dos anos no trabalho de voluntariado. “Dentro da Comunidade sou bem aceite. Hoje vejo crianças a entrar no secundário que eu inscrevi na escola primária e sempre fui uma pessoa batalhadora. Gosto de desafios” – revela Elias Lisboa.

Para o angolano, a inspiração também vem do facto de acreditar nas capacidades da Kinilza como cozinheira. “A ela faltava-lhe administração que é o meu forte. Na altura já estava a trabalhar com ela no Sabor e Arte e sei que consigo administrar a casa e então porque não um lugar maior?” – pergunta.

Entre os dois sócios, cria-se uma relação de cumplicidade comercial que Elias reconhece. “Nunca entraria num negócio destes se não tivesse o suporte técnico que a Kinilza me oferece. Sem esse suporte jamais me deixaria envolver num projecto destes. Juntei o útil ao agradável” – refere ao Palop News.

O local oferecia as garantias de êxito. Uma zona a Norte de Londres onde existe uma extensa comunidade de portugueses e africanos de Língua portuguesa. Na passagem de ano para 2019, 60% dos clientes são portugueses e 40% africanos. Já a comunidade brasileira não parece ser de grande relevância na zona.

Depois de instalados e das obras concluídas, foi a abertura do espaço. “A ementa não foi uma dificuldade. Foi só dar continuidade ao que estávamos a fazer no outro restaurante. O mesmo aconteceu com os fornecedores que já vinham do outro restaurante” – diz Elias Lisboa.

O menu, apresenta os principais pratos portugueses e africanos e tem dias de pratos especiais. “Ao fim de semana temos cozido à portuguesa mas também temos o funge de peito alto, banana com peixe que os santomenses adoram, ou banana com molho de peixe seco entre outras diversidades. “Temos um mix da gastronomia portuguesa e as tradições gastronómicas portuguesas e africanas e temos as feijoadas e todos os domingos temos o cozido à portuguesa. O clássico prato do dia” – diz.

“A gastronomia angolana e santomense misturam-se bem. São parecidas. Por vezes, quando fazemos um evento, se vier um cantor santomense optamos por uma gastronomia local e o mesmo fazemos se recebemos um artista angolano” – diz Elias Lisboa que gere também o departamento de eventos do restaurante que frequentemente oferece música ao vivo.

Para lá do serviço à lista, o Bela Lisboa aposta em iniciativas de acordo com o mercado que pretendem. “Nos menus de grupo, temos o menu de Angola, o de Portugal, de Cabo Verde e de S. Tomé e Príncipe que são vocacionados espacialmente para a comunidade local. Temos poucos clientes de Moçambique mas temos alguns guineenses que começam a ter uma presença muito forte que não havia antes. Trata-se de uma nova vaga de guineenses que estão a chegar a Londres” – revela Elias Lisboa. A somar à diversidade gastronómica pouco frequente em Londres, “Passamos a ter música ao vivo todos os domingos. Temos vários artistas que neste momento se dividem por três nacionalidades. Angola, S. Tomé e Príncipe e brasileiro, todos eles residentes em Londres” – revela Elias Lisboa para acrescentar: Já aconteceu trazermos artistas a partir dos seus países de origem mas a estratégia é contratar artistas residentes em Londres. Depois acontecem situações pontuais como quando sabemos haver artistas de férias em Londres e tentamos juntar o útil ao agradável” diz o estratega que leva o negócio a estar atento a outras oportunidades. “Fazemos comunhões, baptizados e casamentos. O ano passado fizemos três casamentos e este ano já temos quatro casamentos reservados e dois baptizados” – informa.

Ao longo do ano, há outros dias que por serem especiais merecem a atenção da dupla de sócios do Bela Lisboa. “O dia dos namorados, dia da mulher, dia do pai ou da mãe e outros dias especiais do ano merecem a nossa atenção especial seja pelo ambiente seja pela ementa especialmente preparada para esses dias”.

A entrada do ano de 2019, foi outro dos grandes dias que Elias e Kinilza recordam com especial satisfação já que o restaurante esteve esgotado e com nomes na lista de espera. “Tivemos muitos elogios. O pessoal saiu daqui contente. Foi um ambiente familiar com os portugueses e os africanos com a mesma língua com dois DJ’s virados para ambas as comunidades” – recordam.

Quando chega o mês de Dezembro, as tradições também no alvo da empresa. “Jantares e almoços de Natal das empresas e clubes de amigos são em Dezembro um espaço que privilegiamos. Alguns clientes para passar o Natal porque pretendem estar com a família e com os amigos e escolheram o nosso restaurante” – diz Elias Lisboa visivelmente satisfeito com a aposta que fizeram no espaço.

Com tão pouco tempo e tanta actividade, seria caso para pensarmos que Elias e Kinilza estão no espaço há mais tempo. Não é o caso. “Parece que estamos aqui há muito tempo mas não. Afinal foi uma transição de um restaurante mais pequeno para um maior na mesma área e a Kinilza já conhecia os cantos da casa. Foi tudo uma vantagem” – afirma Elias Lisboa para continuar: “Sou um trabalhador e sei o que quero. Vou à procura do que quero e o resultado aparece” – revela.

Se ás segundas-feiras encerra para descanso, os restantes dias abrem ás 8.30 da manhã e o espaço está aberto até à meia-noite. Em casos excepcionais, existe sempre a possibilidade de recorrer a uma licença «one off».

Se antes de abrirem o Bela Lisboa Elias sabia onde estaria num futuro próximo, depois da aberyura do espaço tudo mudou. “Vindo para aqui os planos alteram-se. Angola já não ferve na minha cabeça. O que ferve é triunfar com este projecto novo. Um lugar onde a comunidade possa conviver. Temos poucos lugares onde a comunidade possa conviver e queremos que este espaço seja uma oferta para que a comunidade possa socializar e trocar ideias e acima de tudo dar um contributo para a comunidade” – diz Elias Lisboa que gere um espaço onde se arrisca a existência de 12 mil pessoas a falar Português na zona.

Na verdade, não são muitos os espaços naquela zona a Norte de Londres que estejam vocacionados para os falantes de Português e ao mesmo tempo um raro espaço em toda a metrópole Londrina vocacionado ao mesmo tempo para a gastronomia portuguesa e africana.

Na zona, apesar de poucos serem os restaurantes lusófonos, o ambiente é pacífico e cordial com os empresários a recomendar aos clientes outros espaços na zona. “O Santa Bárbara recomenda-nos e nós também o recomendamos. Temos um ambiente cordial” diz Elias.

“Venham, experimentem e deixem o vosso comentário. Estamos aqui para criar expectativas para que o cliente saia daqui satisfeito que é a nossa prioridade” diz o empresário.

Em alguma coisa porém, os sócios estão em desacordo. Se fossem clientes do Bela Lisboa, escolheriam pratos diferentes e se Elias Lisboa escolheria o bacalhau è Bela Lisboa. Já a cozinheiro Kinilza Graça optaria pela cataplana.

Por nós, optamos por voltar em breve. Muito breve.

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