Agora sim. Agora não.
Saturday, March 28, 2020.

Acabaram as corridas. Correr para o emprego, correr para casa, correr para a escola, correr para o autocarro, correr, correr, correr e correr.

Finalmente parece que todos entenderam que podem finalmente correr. Correr pelo prazer, correr para descomprimir, correr por correr, correr para pensar, correr para suar.

Depois das difíceis batalhas nos corredores de supermercado pelo papel higiénico, chegou o tempo de fazer fila na porta do supermercado para condicionar o número de pessoas no interior. Ninguém reclama mesmo quando se estende o tempo de espera.

Afro Português Restaurante em Barking

Os autocarros passam vazios, desertos de gente e ruído. Finalmente, as pessoas perceberam que parar de correr é possível. Perceberam que a correria do dia-a-dia está invalidada pela necessidade de permanecer vivo e ao mesmo tempo não matar. A viver no centro de Londres, é agora possível ouvir o canto dos pássaros que vieram substituir o ruído dos motores que a toda a hora marcavam a sua presença. Vinte e quatro horas por dia, 365 dias por ano.

O recreio da escola frente à janela que todos os dias mostrava muitas dezenas de crianças que antes corriam e gritavam, mostra agora um pequeno grupo que não chega a uma dezena. Talvez filhos desses heróis que continuam a trabalhar. Filhos de médicos, enfermeiros, motoristas de autocarros, funcionários da recolha do lixo e até mesmo jornalistas. Desculpem se me esqueci de alguma profissão.

Os projetos que havia para grandes e pequenos eventos, estão agora cancelados sem data para reabrir e as pessoas têm agora que aprender e descontrair. Relaxar é também um processo que ajuda a pensar. Meditar tornou-se uma prática e agora cada pessoa pensa apenas em olhar para dentro de si mesma.

Artistas, reis, príncipes, atletas, jogadores e sem-abrigo. Um inimigo que não distingue castas ou algibeiras, raças credos ou culturas. Nem idades.

Um inimigo que desconhece fronteiras e que ninguém sabe como espancar ou matar. A Humanidade nunca mais será a mesma depois desta enorme lição de distanciamento. Sem beijos nem abraços. Um avô que conhece o seu neto pela janela de vidro fechada, uma mãe que vê as suas compras chegar no tapete da porta, um neto que não pode beijar a avó, um irmão que não pode abraçar o outro, um ser Humano que se vê obrigado a NÃO fazer tudo aquilo que o mais natural em todos os seres humanos. Abraçar, beijar, ser abraçado ou beijado.

Duas semanas foram o suficiente para parar o Mundo. Empresas, serviços, espaços de convívio deixaram o mundo em suspenso e sem data.

Políticos tentam o possível e sonham com o impossível. Cientistas trabalham sem parar à procura de uma solução e todo um conjunto de massa crítica tenta ajudar como pode. Mesmo sem poder. Para outros, vão andando que eu vou lá ter.

O impacto na economia é desconhecido e nem sequer previsível. Quem vai pagar o quê e quando é como um pára-quedas que pode abrir…, ou não.

O pior não é tão só o medo do contacto. O pior, é mesmo o medo de respirar.

Tempo para descomprimir.

Manuel Gomes/Londres

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