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Como um arquitecto português vê os negócios portugueses em Londres

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Pedro Shuller é um arquitecto português a residir em Londres. Nesta entrevista, dá a conhecer as suas sensibilidades naquilo que é a sua especialidade e chama para cima os erros mais comuns e as vantagens que os portugueses gozam pelo prestigio do trabalho que desenvolvem na construção.
Começando pelos estabelecimentos portugueses, sobretudo na área da restauração, Pedro Shuller destaca os erros cometidos ao nível da decoração de interiores e organização do espaço.
Pelo que fica dito, os estabelecimentos portugueses em Londres cometem muitos erros sob o ponto de vista da arquitectura de interiores. "Os erros mais frequentes, são principalmente na organização do espaço na mobilidade das pessoas e na funcionalidade do espaço muitas vezes ao nível do staff, da organização da cozinha, da parte interior dos bares, a ligação do bar com a cozinha, a disposição das mesas. Em alguns casos é preciso dar alguma privacidade aos clientes que tendencialmente é inexistente nos estabelecimentos portugueses nomeadamente na restauração. 
Há uma serie de erros técnicos de arquitectura na organização do espaço. Ao nível da decoração então o erro é ainda maior" - diz Pedro Shuller ao Palop News.
- E comum que os estabelecimentos propriedade de migrantes em Londres se identifiquem com o pais de origem desses empresários? 
- Alguns sim, principalmente os italianos que costumam ter uma decoração muito típica italiana. Os portugueses parecem-me mais uma misturada. Não tem um carisma próprio. Alguns são bem feitos mas em termos gerais haveria muito a fazer se os empresários pudessem recorrer a um técnico especializado em seu próprio beneficio. Os brasileiros também têm muitos trabalhos bem feitos. Na verdade, conseguimos encontrar de tudo. Bem feito e mal feito porque também há muitos restaurantes portugueses que estão tecnicamente muito bem elaborados ao nível da identificação do pais de origem. Na minha opinião, é isso que se deve fazer. Passar através da imagem o lugar de onde viemos e quem nós somos. Na minha opinião, alguns estão bem feitos mas ainda podemos melhorar bastante para identificarmos a imagem do nosso pais para o mercado onde estamos situados.
- O que é que distingue os estabelecimentos de restauração portugueses dos tipicamente britânicos? 
- Os estabelecimentos de restauração britânicos seguem muito a linha do italiano ao nível da decoração de interiores. Desconheço a razão para esse facto. Não estou cá há tantos anos que me permita ter mais informação histórica sobre esta característica. A verdade é que constatamos que existem muitas semelhanças entre um “coffe shop” italiano e outro tipicamente britânico ao nível da decoração. 
Digamos que os ingleses, a exemplo dos italianos, trabalham muito por exemplo com as madeiras cruas, sobretudo ao nível da madeira à vista, madeira bruta ao nível do acabamento enquanto que nós portugueses e mesmo os brasileiros e espanhóis, os da América Latina, trabalhamos já de uma forma diferente. Trabalhamos com madeira mas com acabamento. Nós temos um conceito mais estético a nível europeu do que tem os ingleses. Temos uma maior preocupação com o detalhe. Se compararmos um restaurante inglês com um restaurante português num conceito de classe média  (Não falamos de restaurantes ou cafés topo de gama), verificamos que o tosco está mais presente enquanto que num espaço de origem portuguesa, brasileira ou espanhola, vemos acabamentos mais cuidados e com maior requinte. Isso faz parte da nossa cultura ao contrário dos ingleses mais pela vertente prática enquanto que nós temos uma preocupação com a estética. 
São estilos diferentes. A arquitectura em Portugal ou no Brasil, tem uma arquitectura mais sensível ao detalhe artístico enquanto que em Inglaterra a arquitectura e mais técnica. Assim se explica que o arquitecto inglês tem permissão para fazer cálculo e nós portugueses temos noções de cálculo mas não temos permissão para assinar essa parte do projeto da engenharia civil. Já o arquitecto inglês, ate determinado patamar pode assinar a engenharia. 
Nós temos uma maior preocupação artística e criativa, os ingleses tem uma preocupação mais técnica com a parte prática em detrimento dos conceitos de beleza. São culturas diferentes. 
- Os estabelecimentos de restauração portugueses refletem o típico de Portugal? 
- Do Portugal de há 20 anos atras sim, do Portugal de hoje não. Hoje em Portugal há um cuidado com o design de interiores muito grande, com a organização do espaço, o acabamento dos materiais, com a conjugação de cores. Quando se faz um restaurante nos dias de hoje em Portugal, já se trata de levar as cores do restaurante para o conceito gastronómico. São cores que convidam ao apetite, que fazem com as pessoas se sintam melhor dentro do restaurante que se tivesse outras cores teriam um resultado contrário. Em Londres, ainda não encontramos isso nos restaurantes portugueses. Digamos que neste domínio, os empresários portugueses em Londres, não sofreram a mesma evolução que aconteceu em Portugal. No nosso pais, o empresário de restauração evoluiu bastante em áreas como o conforto do cliente o que não se verifica aqui nos restaurantes portugueses, com algumas exceções, claro. 
- As cores podem insinuar apetite? 
- Há cores que sim. De alguma forma, o arquitecto trabalha com as cores no sentido de que o estabelecimento venda mais. Nas cores e na organização do espaço para que as vendas sejam maiores. Só isso não basta mas as cores são muito importantes. 
- O que é que seria preciso fazer para que os estabelecimentos de restauração portugueses pudessem cativar uma clientela mais internacional em Londres?
Shuller dá um exemplo. 
- Quando vamos a um supermercado, como o Cooperative, Sainsburys ou Waitrose, vemos uma maioria de clientes são ingleses. Há pouca imigração a fazer compras nesses estabelecimentos. Se por outro lado formos ao Iceland ou ao LIDL, verifica-se o contrário e não se vem muitos ingleses. O cliente inglês, prefere ir ao Costa pagar £2.30 ou £1.85 num café expresso, do que gastar £1.00 num café português. Isto não tem que ver com arquitectura mas tem que ver com cultura.
É muito difícil chegar lá. Um empresário português que queira atingir o mercado do "inglês", tem que fazer algo à semelhança daquilo que os ingleses fazem. Com uma decoração de origem portuguesa, brasileira ou até mesmo hispânica, querer atingir o figurino de cafés que tem 70% de clientes ingleses, dificilmente conseguirá. 
- Se o quiser fazer, tem mesmo que alterar o conceito de interiores? 
- Os que tenho feito até hoje, com donos portugueses para clientela inglesa que têm tido êxito, foi isso que nós fizemos. O aspeto dos estabelecimentos que trabalhei, nada têm que ver com a cultura portuguesa ou brasileira e a decoração interior é toda ela ao estilo inglês e italiano que são dois estilos comuns. 
- Qual a primeira coisa a fazer para abrir um estabelecimento? 
- Definir o público alvo que se pretende e só a partir daí se trabalha em cima da decoração. A geografia, é o ponto de partida. Onde estamos? Que tipo de mercado pretendemos nesse espaço e só depois se começa a trabalhar a imagem. 
Para lá das questões de design, organização do espaço, iluminação e da mobilidade dentro dos espaços, há depois outras questões em que o arquitecto é útil e muitas vezes obrigatório. Falamos por exemplo da alteração da categoria do estabelecimento de A1 para A3, por exemplo. Quando temos um espaço com uma licença A1, que permite ser um coffe shop mas que não permite ter cozinha. É possível aquecer comida, vender comida mas não cozinhar nem ter fogão até pela ausência do sistema de extração. Muitos empresários, querem converter essa licença A1 numa outra que lhe permita desenvolver outras actividades como cozinhar obtendo a licença A3. 
Tem que ter sistema de exaustão e a partir daí também já podem ter fogão e já podem confecionar comida, o que não é possível com uma licença A1. 
Estas alterações, obrigam a seguir uma serie de regras que são avaliadas. Lugares sentados, lavabos, espaço, autorização dos vizinhos e também ver se o espaço tem condições para ser convertido em A3. Esse é um dos trabalhos que o arquitecto faz. 
As tubagens por exemplo podem ser aproveitadas para a própria decoração do espaço. Há decorações muito bonitas com a tubagem à vista. Tudo depende daquilo que se quer fazer. Nesta caso, seria um café que passaria a ser restaurante. Depende daquilo que se quer fazer. Se for segundo a moda inglesa, os tubos vão ficar visíveis porque os ingleses defendem que assim é mais fácil fazer manutenção. Aliás, vê-se que nas toilettes, tudo que é esgotos e água  está à mostra. De facto, é mais fácil fazer a manutenção mas em termos visuais e estéticos não é o mais agradável até porque é possível recorrer as sancas, painéis falsos e amovíveis que são fáceis de remover, permitem a manutenção e são mais eficientes sob o ponto de vista da estética. Não é necessário partir paredes quando acautelamos as situações e não temos que deixar tudo amostra. 
- E no que refere a outro tipo de estabelecimentos? 
A generalidade dos imigrantes, tem duas alternativas. O recurso ao emprego, muitas vezes pouco qualificado, ou abrem o seu próprio negócio. Muitas vezes, a opção do emprego leva a atividades que não seriam as mais desejadas. Quando decidem abrir o seu próprio negócio, a maior parte das vezes os recursos financeiros são tendencialmente limitados porque há coisas que são essenciais e depois há outras que não sendo entendidas como tão essenciais ficam para trás. Pode-se abrir um restaurante com uma decoração melhor ou pior mas não se consegue abrir um restaurante sem um fogão. O investimento estético ou decorativo do espaço é o primeiro a sofrer o efeito da ausência de recursos financeiros. O assunto é importante mas o budget do cliente nem sempre chega para tudo. Onde e que se peca em qualquer tipo de negocio, sendo ou não restaurantes? Na verba disponível para a decoração. 
- Poupa-se no farelo e desperdiça-se na farinha? 
- Não, não é isso. Tem um pouco que ver com a cultura e principalmente nós os portugueses, muitas vezes, quando se fala em publicidade ou em design, tudo é encarado como uma despesa e não como um investimento. Eu tenho duas preocupações quando faço um projeto de arquitectura em design de interiores. Convidar a entrar quem passa na rua e, quando a pessoa entrar fazê-la sentir-se bem dentro do espaço. Essa é a minha obrigação. A responsabilidade do meu cliente, passa por atender bem a pessoa que entra com um bom serviço e atendimento. Não é o separar a farinha do farelo mas entre ter uma cozinha equipada ou um espaço decorado, quando a verba disponível é curta o empresário opta por equipar a cozinha em lugar de ter uma boa decoração. Isso vai levar a que demore mais tempo para o cliente do estabelecimento entre, vai levar mais tempo a que se sinta bem no interior do espaço e o empresário vai levar mais tempo a recuperar o investimento. 
Onde e que se peca em qualquer tipo de negocio, sendo ou não restaurantes? Na verba 
- Trabalhar com advogado e caro, trabalhar sem advogado é mais caro ainda. Podemos dizer o mesmo do arquitecto? 
- 100% de acordo. Por um motivo muito simples e já nem vou falar do que falei antes. Falo no passo seguinte que é quem vai fazer a obra. Um plano da obra, daquilo que se vai fazer. O construtor, sabe olhar para o projeto e sabe dar um orçamento. Sabe o que vai fazer. O dono do estabelecimento ou da casa, também sabe aquilo que o construtor vai ter que fazer. Não existe o "acho que" ou "achava que" que geralmente se traduz num conflito do "eu pensava que ias fazer isto" ou "eu não sabia que era para ser feito". Há exemplos flagrantes em que no final da obra é preciso colocar mais 3 ou 4 tomadas elétricas na parede para ligar mais duas maquinas e o construtor não sabia e o dono da obra também não. Resumindo; o que se podia fazer em 30 dias leva 60, o que supostamente iria custar dez mil, passou a custar quinze mil. Muitas vezes, ate há o dinheiro para o arquitecto, o que não há é a ideia da necessidade do arquitecto. O arquitecto é muitas vezes como um luxo e não como um técnico que promove a excelência para que as coisas saiam organizadas e vistas antes de serem executadas. Não se pode abrir um negocio a moda antiga com o lápis atras da orelha. Há que por no papel uma programação daquilo que se vai fazer, não só o plano a nível do negócio mas ter também um plano ao nível do espaço e da organização desse espaço. 
Quantas mesas vai levar? Se mudarmos este detalhe, ganhamos espaço para mais uma mesa que pode atender mais duas ou quatro pessoas? Todo esse trabalho que e feito com o arquitecto em conjunto com o dono da obra, muitas vezes é descurado e isso vai levar a que haja atrasos na obra com custos acrescidos bem como ate um subaproveitamento do espaço e tudo isso resulta num prejuízo futuro. A poupar no essencial, perde-se dinheiro no futuro do estabelecimento. 
- Em Portugal os arquitectos eram para desenhar janelas 50 anos atrás. Essa ideia ainda está presente nos empresários portugueses em Londres? As pessoas têm a mania que também sabem desenhar? 
- Dou o exemplo dos chineses. Nunca consegui fazer um projeto para um cliente chinês apesar da quantidade de empresários chineses em Londres. Na cultura chinesa, se o empresário pode fazer tudo, é isso que ele faz. O empresário português é um pouco parecido com este espírito. Há exceções com alguns empresários portugueses que confiam o trabalho do arquitecto ao arquitecto. Há sempre discussões sobre as questões técnicas mas a partir de determinado momento as coisas separam-se. O dono da obra que é chefe de cozinha vai tratar dos detalhes da sua função e eu trato dos detalhes da minha. Raramente se encontram casos destes mas acontecem normalmente o cliente já sabe o que pretende. Só não consegue é meter no papel o que pretende. 
A maioria dos empresários portugueses, recorre ao arquitecto quando não consegue fazer o que e necessário ser feito como por exemplo submeter um projeto junto das autoridades. 
- Quanto ao mercado residencial, o que difere? A construção britânica do inicio do Século passado, permite hoje que em Londres se assista a uma reconversão com investimentos que transformam uma antiga casa de família num conjunto de estúdios e pequenos apartamentos. Sótãos e extensões. 
- Temos dois mercados nesse âmbito. O mercado da aplicação quando o projeto tem que ser submetido junto das autoridades e temos o mercado, uma fatia que eu diria de 50% de pessoas que tem preocupações com o aspecto estético e organizacional do que vão fazer. Falo de pessoas que se preocupam com o encobrimento das tubagens de água, esgotos e eletricidade para que não fique amostra e que também se preocupam muito com a iluminação. Estamos num país  com pouca luz e é preciso jogar com o máximo de aproveitamento da iluminação solar quando ela existe. Neste caso o arquitecto faz falta para as janelas. 
Nesse âmbito eu diria que há uma metade que se divide pela necessidade e outra metade com o aspeto estético depois da obra concluída. Em grande parte, isto deve-se a mentalidade do construtor português que é muito diferente da mentalidade do construtor inglês. Tal como nos arquitectos, vimos com uma sensibilidade cultural que apela ao sentido estético e o construtor português é um aliado dessa sensibilidade. O construtor português tem também uma preocupação com o detalhe do acabamento. Eu classifico o construtor português em Londres como muito bom ao nível dos acabamentos. 
- Numa escala de 1 a 10, se tivéssemos que classificar os construtores portugueses em Londres, que classificação lhes seria atribuída? 
- No mercado inglês, comparado com construtores de outras nacionalidades, eu daria um nove ao construtor português. Os portugueses asseguram uma grande qualidade da construção que executam. Quando falamos de construção e consideramos tudo aquilo que fica por detrás das paredes, toda a parte estrutural, toda a gente faz igual. A grande diferença de uma obra bem ou mal feita, está no detalhe do acabamento e nós aí temos que valorizar o nosso povo porque os nossos construtores são bons quando comparados com construtores de outras nacionalidades a trabalhar em Londres. Portanto, nota 9 numa escala até 10. 
Torna-se importante que se perceba que o arquitecto não pode ser o dono da obra nem o construtor, o construtor não pode ser o dono da obra ou o arquitecto e o dono da obra não pode ser o construtor ou o arquitecto da obra. Como se diz no Ribatejo, ou se é toiro, ou toureiro - finaliza. 
PN
30/9/2017

Artigo publicado com o apoio:
 

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