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400 pessoas sem comer

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Era frequente ter que viajar do Porto a Lisboa. Fosse para uma gravação, um encontro de trabalho, a visita a um departamento governamental ou outra razão qualquer. Entrar e sair de Lisboa, era um percurso tirado de memória sem necessidade de mapas ou GPS, até ao dia em que eu, tripeiro, portuense e portista, decidi ir viver para zona. Cascais foi o estaleiro escolhido para montar a barraca e as viagens de Cascais a Lisboa, tornaram-se quase diárias. Tornei-me o forasteiro perdido na Capital.

Nasceu assim a necessidade de conhecer Lisboa, não como um visitante mas como um nativo. Conhecer as avenidas, as ruas e vielas. Talvez um emprego como taxista fosse o ideal mas não havia tempo para isso. Nem tempo, nem habilidade, nem vontade.

Um dia, na Freguesia dos Anjos, acabou a agenda do meu dia. Acabei a entrar num restaurante para jantar. Tinha tempo para apanhar o comboio até Cascais, passar pelo Hips antes de chegar a casa para dormir já com a calma de um copo entre amigos que fui criando em Cascais.

Saí do restaurante a caminho da estação do Cais do Sodré, quando vejo uma van com a porta de trás aberta. Em redor, algumas pessoas com coletes reflectores e uma fila de pessoas ordeiramente a esperar vez. Aproximei-me e quando estou a encostar os olhar nas janelas da van, alguém chega junto de mim para me oferecer um kit de comida. Fiquei intimidado. Eu devia estar mesmo com mau aspecto para que alguém me viesse dar comida. Timidamente, fui em frente.

- Desculpe. Não é isso que procuro.

- Em que posso ajuda-lo? – perguntou o meu interlocutor.

- O que preciso fazer para ser vosso voluntário?

Pousou o kit de comida nas traseiras da van, fou ao banco da frente e trouxe um cartão de visita.

- Tem aí os contactos – disse-me.

Guardei o cartão no bolso e segui o meu caminho. Cais do Sodré – comboio – Cascais – Hips e casa. Atirei o cartão de visita para cima da mesa e fui dormir.

No dia seguinte, quando liguei o computador, olhei para o cartão e enviei um e:mail a oferecer os meus serviços. Depois, desliguei do assunto e nunca mais me lembrei. Até ao dia em que recebo a resposta com um convite para uma entrevista em Alvalade.

- Tem carta de condução?

- Sim, tenho.

- Qual a sua disponibilidade?

- Sou profissional liberal. Jogo sozinho com o calendário e o relógio.

- Pode estar aqui na próxima 5ª Feira ás 20 horas?

- Posso sim.

- Pode ficar ao serviço até ás 4 da manhã?

- Posso – respondi.

- Conto consigo na próxima 5ª Feiras ás 8 da noite.

Agradeci e regressei a Cascais.

Na 5ª feira seguinte, apresentei-me ao serviço na hora marcada. Deram-me as chaves de uma van e apresentaram-me 6 pessoas que já tinham experiência e me dariam todas as instruções. E lá fui, motorista de uma equipa a distribuir packs de comida a quem dorme na rua. Ás 4 da manhã, quando regressei a Alvalade à sede da Missão Viva e Paz, a pessoas que me tinha entrevistado estava à minha espera.

- Como correu a noite? – perguntou.

- Creio que bem – respondi.

- Quantas refeições distribuíram?

- Levamos 400 e não trouxemos nenhuma.

- Se um dia você faltar sem avisar, 400 pessoas vão ficar sem comer.

Aprendi que ser voluntário, não dá o direito de faltar. Não dá o direito de dizer “eu sou voluntário e venho apenas se puder ou quiser”. Ao contrário, dá o dever de não falhar. É a responsabilidade de muitas pessoas perderem quando o voluntário falha.

Ser voluntário, é a carga imensa de assumir um compromisso a que não podemos virar as costas. Ao longo de cinco anos, conheci e fiz amizade com muitos sem-abrigo que foram milionários; histórias que uma vida inteira não seria capaz de escrever.

Deixo-as escritas nesta tentativa de explicar a quem é voluntário e a quem o quer ser, de que forma entendo o ser voluntário. Dedicado a todos os voluntários que se tornam mais ricos por o serem com um lamento muito grande para quem nunca o foi e a miséria de quem nunca pensou sê-lo.

Alcino G. Francisco

PN

 

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