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Maiuko. Três artes numa mulher

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Anos depois de estar a viver no Reino Unido, Maiuko, continua a diva da música, um dos mundos que melhor conhece e que melhor a conhece.
Suazi por herança, moçambicana pela raiz, portuguesa por paixões mas essencialmente britânica por antiguidade, Maiuko foi uma das artistas convidadas para os festejos do 40º aniversário de Moçambique no Reino Unido.
Seria a hora de, mais do que conhecer a sua obra ou os seus projectos na música, conhecer a intérprete, a cantora, a artista e sobretudo a mulher.
Para o nome Maiuko, a própria dá duas traduções possíveis. "Grande Espírito ou Mãos Sagradas", são as duas formas de interpretar o nome que tem e ambas as traduções derivam da interpretação de um dialeto africano. "Embora grande espírito seja mais poeta, eu também gosto do que as minhas mãos fazem" - diz Maiuko ao Palop News.
- Ficamos sem saber o que tens de melhor; se as mãos, se o espírito... - deixamos cair.
- Eu também ainda estou a descobrir - responde a artista.
Chegou a Portugal com 17 anos para continuar os estudos onde fez a Introdução a Psicologia e depois começou a cantar em detrimento da psicologia que haveria de retomar mais tarde.
Os Trópicos, seria o primeiro projecto musical a abraçar que não deixaria história para contar pelas musicas de baile, em função dos bailes que se faziam na época. "Era uma família muito bonita - revela Maiuko - apenas um dos elementos não era irmão mas era como se fosse e a mim acolheram-me como se fosse uma irmã mais nova. Foram a minha primeira inspiração para continuar no mundo da música. Foi o meu amor à primeira vista - diz.
O seu valor como intérprete, haveria de se tornar conhecido pouco depois com o tema "Under cover lover" com a produção de Luís Filipe. É nesta altura que parte em digressão por Portugal e no estrangeiro.
- Foi um tema que fez furor porque havia quem soubesse produzir o marketing e ao mesmo tempo uma grande dose de sorte. Acho que caí em graça, tanto que na altura eu não considero que tivesse a imagem que era aceite nos anos 80. Nessa altura, eu ainda não sabia cantar nem estar em palco e tive que aprender à pressa.
De tal forma aprendeu, que pouco mais tarde, tem já trabalhos assinados com Pedro 
Malagueta, Tó Leal, Dulce Pontes, Isabel Campelo, Luis Represas, Pedro Caldeira Cabral, Teresa Salgueiro, Carlos Mendes, Sara Tavares, Júlio Isidro ou Hermam José.
- O Carlos Mendes escreveu para mim a única vez que participei no Festival da canção com o "Não me tirem este mar".
- Conservas-te esse mar?
- Acho que sim embora eu tenha vários mares. Adelina Pereira escreveu um dia que "Todos os rios confluem... num lago que se chama Maiuko" e eu acho que ela descreveu isso muito bem porque na verdade é isso que eu sinto através daquilo que tenho no meu sangue com os meus pais, os meus avós e bisavós. O meu lado português ficou predominante não entendo muito bem porquê já que as minhas misturas, são principalmente africanas e porque vivi muito pouco tempo em Portugal. Afinal, tenho raízes geográficas muito dispersas; português, francês, alemão, africano e japonês. Sou uma mistura imensa.
Partimos à descoberta destas partes e falamos com a Maiuko de Duarte José, o pai da intérprete.
- Se eu tivesse nascido homem, eu teria sido uma cópia do meu pai tal é a influência que sempre exerceu em mim. Tínhamos gostos muito parecidos em tudo. Mesmo na música, a primeira influência que tive veio do meu pai que tinha uma voz maravilhosa. Era também um artista que era também arquiteto e que gostava de fazer coisas com as mãos e ajudar pessoas. Acho que isso, aprendi com ele. Lembro-me dele sempre que sou convidada para apoiar causas.
De tal forma aconteceu esta influência que acabei por lhe dedicar dois temas, sendo que um deles faz parte do meu ultimo trabalho e outro será incluído no próximo que já tenho cantado várias vezes ao vivo.

Maiuko, acabaria por deixar Portugal para vir viver para o Reino Unido. "Deixei Portugal depois de ter tido uma carreira muito importante mas ao mesmo tempo muito breve. Em Portugal, eu estava a seguir um espaço musical que não me dizia muito. Não posso dizer que desgostei. Tenho muito orgulho daquilo que fiz. Acabou por mudar de rumo porque a editora com quem eu estava a trabalhar pretendia que eu fizesse trabalhos que pouco ou nada me diziam e isso estava-me a oprimir como uma borboleta que queria voar e não podia. Ao mesmo tempo, penso que tive um êxito enorme antes de estar preparada para aquele celebridade. Acho que ainda hoje não percebo muito bem mas na altura, muito menos.
Em lugar de abraçar esse sucesso, eu tinha principalmente medo. Começaram a vestir-me com aquilo que eu não era e em cima do palco era tudo muito desconfortável.
- Mas as fotografias ficavam bonitas?
- Ficavam bonitas e fizeram de mim uma "babydol" africana que eu não era. Não tenho nada contra. É feminino e até é bonito até certo ponto mas não é o que eu sinto nem nunca foi o que senti. Tive que calçar esses sapatos que não me serviam e que ficavam apertados. Senti que tinha que parar e saí de Portugal para respirar e ver o que queria da minha vida.
Acaba por ser em Inglaterra que Maiuko descobre a sua história de amor mais duradoura. Quisemos saber mais.
- Até hoje nunca aconteceu eu mudar a minha vida para ir atrás de alguém. Eu acredito que uma pessoa tem que se encontrar a si própria antes de viver com outra pessoa. Ao contrário, fará a vida da outra pessoa um inferno. Quando vim para Inglaterra, foi para estudar com uma bolsa de estudo que depois consegui prolongar até cinco anos, e dentro desse tempo, aprendi muitas coisas sobre a criatividade.  Depois, continuei a psicologia. Esse foi o objectivo principal. Depois, o facto de no mundo da música se conhecer muitas pessoas. Em Inglaterra, nunca deixei de cantar porque faz parte de quem eu sou. Aqui mudei o meu estilo de música para o género que eu cresci a ouvir por influência do meu pai e do ambiente na minha casa, o jazz e o blues e foi assim que conheci o inglês com quem trabalhei e partilhei a minha vida. De vez em quando ainda trabalhamos juntos.
Uma das informações que Maiuko mais guarda em segredo, deriva do facto de ter ascendência monárquica. Poucos sabem que Maiuko, é princesa de facto.
- Isso não corresponde. A princesa da Suazilândia é a minha mãe, não sou eu. Eu limito-me a ter uma gota de sangue real e a participar em ações de solidariedade com a família da minha mãe que é também a minha. Atualmente, participo em ações de combate à SIDA e antes o focus eram as crianças orfãs. Isso, continuarei sempre a fazer. Uma coisa que eu gostava de esclarecer. Existe algumas vezes um certo negativismo em relação às famílias reais. Diz-se muito que têm tudo e não fazem nada e aqui ou na Suazilândia é igual, embora em África se viva de uma forma diferente. Na Suazilândia, a família real tem mais responsabilidade por seguirem o princípio dão exemplo de moral. Todos os membros, têm um posto, um trabalho ou um cargo para exercer e essa é a verdade da família real.
- Acompanhas a vida da Suazilândia?
- Sim, dentro do necessário para mim. Eu tenho uma cultura mista e não vivo lá. Depois porque também sou moçambicana e portuguesa a viver no Reino Unido há mais de 20 anos.
- A pergunta seguinte, seria a doer. Como lidas com o dinheiro?
- Não sou milionária mas sou sortuda na medida em que faço o que gosto. Eu tenho uma moral em relação ao dinheiro que eu gosto e que me vem de família. O meu pai estava bem na vida mas enquanto crianças, nunca nos apercebemos de que éramos ricos. Nunca. Hoje sei, éramos mas nunca nos apercebemos que pertencíamos à família real. Hoje tenho essa noção mas só agora. Fomos sempre iguais a toda a gente e com o dinheiro é a mesma coisa. Acho que é útil quando se faz bem com o dinheiro.
- És mais africana ou mais europeia?
- Fizeram-me essa pergunta ontem e faço-a eu mesma a mim todos os dias. Não sei. Eu sou essa mistura e gosto de ser as duas coisas. Se tivesse que escolher seria como escolher entre o meu pai e a minha mãe.
- Onde é que te sentes mais confortável? Quando aterras em África ou na Europa?
- A Terra é uma mãe para mim e eu gosto deste planeta. A minha casa é onde eu estou naquele momento.
- Tu não tens informação na Wikipedia!
- Não, não tenho.
- És mais psicóloga, mais artista plástica ou mais intérprete?
- Sou as três coisas.
- Em qual destas águas nadas melhor?
- Penso que todos nós somos psicólogos. A forma como abraçamos isso é que varia de pessoa para pessoa. A vida é como um livro que não tem fim. Estou sempre a aprender e sempre fascinada. Se voltasse atrás e me dessem a escolher eu voltaria a escolher psicologia. Cada pessoa é um caso diferente e temos transições durante o dia, os minutos ou os segundos; a toda a hora e nunca acaba.
- Se tivesses que escolher uma das três?
- Não tenho que o fazer. A experiência em psicologia, é como na escultura ou na música. A peça, ou a música falam por si e o artista só ajuda à formação dessa peça. A peça está lá e sempre esteve.
- Numa queda de pára-quedas, em qual das tuas ilhas preferias aterrar? Na psicóloga, na escultora ou na intérprete?
- Isso é banda desenhada mas eu vou tentar responder. A psicóloga está em mim e vai comigo para todo o lado, assim como a intérprete e a escultora. Não sou divisível em mim mesma.
- Ainda guardas o vestido branco com que foi cantada a "Under cover lover"?
- Está em casa da minha mãe e é um vestido assinado pelo Zé Carlos.
- Gostas mais de Portugal ou de Inglaterra?
- É outra coisa em que estou dividida. Como disse antes, a minha casa é onde eu estou mas confesso que Lisboa está muito bonita, muito cor de rosa mas muito linda. Depois chego a Inglaterra e sinto-me bem também aqui.
- Já te passou pela cabeça se um dia chegas a Lisboa e em lugar de estar cor de rosa se estiver azul e branco?
- Não sei mas eu vou mais para o rosa. Há dois anos fui à Madeira e voltei a apaixonar-me pela Madeira. Não me queria mesmo vir embora. A Madeira é um quadro que mistura a África e a Europa de uma forma fantástica e está muito bonita. 
Para uma amiga de Maiuko, a descrição é feita assim. "Gosto do espírito livre e da voz da Maiuko. Gosto do seu sentido de harmonia. Há algo nela que me traz paz. Não sei onde é que ela vai buscar isso mas é o que inspira. No palco e fora do palco. Já do tempo em que a via cantar no início da carreira.
- Ainda contactas com as pessoas com quem trabalhaste ao longo dos anos?
- Algumas delas sim. Sempre que posso e que se proporciona. Sinto-me próxima a muitos deles. No início da minha carreira, eu ia muito ao bar do Luís Represas, o Xafariz, e fizemos algumas tournés juntos e a amizade continua muito forte. Da nova geração, a Sara Tavares é uma pessoa com quem mantenho contactos mais ou menos frequentes. Eu tenho uma admiração especial pela Sara Tavares porque no início da carreira dela, antes dela gravar o seu primeiro trabalho, esteve comigo em estúdio aqui em Inglaterra e uma das composições entrou no álbum dela e a outra, entramos juntas em dueto no meu álbum. Depois vi-a crescer. Dá imenso prazer quando vemos uma pessoa jovem que nos faz lembrar do nosso próprio princípio com todos os receios. No caso da Sara, ela cresceu solidamente dentro do estilo próprio que tem até hoje e tem uma carreira muito bonita.
- Porque razão entre vocês as duas, existe tanto Zeca Afonso?
- São paixões separadas. Gosto muito de Zeca Afonso. Ele conseguiu o espírito de fusão com África até porque ele viveu em Moçambique. Ele português, moçambicano, conseguiu essa mistura através da emoção na música.
- Como foi a passagem do pop music para o jazz? Foi um apetite?
- Eu cresci com jazz. O meu pai tocava e cantava e em casa tinhamos muita música jazz, daquele jazz mais antigo. Se o meu pai fosse vivo teria hoje mais de 90 anos. Tínhamos jazz e blues o dia inteiro e isso marcou-me e ficou comigo. O natural para mim, foi derivar para o jazz.
Gostei do pop e gosto muito do compositor que escreveu e compôs o "Under Cover Lover" e acho que ele fez um trabalho fantástico. Acho mesmo que o "spice" dessa música foi mesmo a produção. Foi uma fase bonita. Eu era jovem mas depois fui crescendo e isso levou-me a outros caminhos.
- Preferes o tijolo britânico ou o tijolo português?
- Estou a ver se me consigo lembrar do tijolo português mas acho que prefiro o tijolo britânico.
Na curiosidade desta entrevista, a descoberta do talento da artista para o canto barroco que a generalidade do público desconhece. Mais do que falar do(s) seu(s) trabalho(s), uma entrevista para dar a conhecer a riqueza pessoal no sentido humano, de uma mulher que é psicóloga, escultora e intérprete e que no seu todo fazem uma foz de arte e paixão resumida a seis letras.
Maiuko.
PN

 

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