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Home Entrevistas Gilberto Ferraz. Jornalista português trabalhou 30 anos na BBC

Gilberto Ferraz. Jornalista português trabalhou 30 anos na BBC

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Uma das entrevistas mais difíceis que um jornalista pode fazer, é sem dúvida, a outro jornalista. Quando esse jornalista tem 30 anos de serviço na catedral mundial da informação chamada BBC, as dificuldades acrescem. Exceto quando o jornalista se chama Gilberto Ferraz e trata os colegas com a amizade e a deferência própria dos grandes homens.
O encontro, foi marcada junto a Oxford Circus, frente ao Consulado de Portugal em Londres e o destino, seria à mesa do clube da BBC destinado ao pessoal da casa.
Gilberto Ferraz, faz as honras da casa e depressa descobre que na carta de vinhos, há vinho português. Posta a mesa ao lado de outros jornalistas que estavam já sentados na mesma mesa, falamos do mundo e de vidas antes de ligar o gravador. Abria-se a porta de uma história contada aos pedaços.
A chegar do tempo em que um simples gravador de voz dava dores nas costas, Gilberto Ferraz, o jornalista português da BBC, recorda a luta que teve devido à utilização do fax.
Presidente da Comissão Sindical da BBC, Gilberto Ferraz vê a carreira mordida pelas histórias da guerra, pelo caso Maddie MacCan, pela morte da Princesa Diana e um sem numero de corredores da política que fez a história da Europa do ultimo meio século.
- Você foi intérprete de uma violenta "guerra" por causa da utilização do fax. O que é que recorda dessa história?
- Eu era correspondente do jornal de Notícias. Os grandes jornais americanos por exemplo, tinham o seu próprio equipamento e os seus escritórios mas os correspondentes, como eu, trabalhavam a partir de casa. Havia mais de 200 correspondentes que dependiam do serviço público do fax para o envio dos seus trabalhos e a BT (British Telecom), tinha instalado um serviço de 24 horas. Nessa altura, um Diretor dos serviços veio falar comigo e pediu-me confidencialidade. A BT estava a ser privatizada e estava em cima da mesa o fecho do serviço de fax. Fiquei alarmado. Não podia crer que os mais de 200 correspondentes a trabalhar em Londres ficassem impedidos de fazer o envio das suas matérias para os respetivos países. Era o nosso único meio de envio.
Com esta informação privada, tomei a liberdade de contactar os colegas mais próximos, indianos, africanos e outros e tal como eu, ficaram surpreendidos. Todos dependíamos daquele serviço.
Fui então nomeado Presidente para uma responsabilidade só compatível com o meu desejo de servir. Nessa altura, era já Presidente do Sindicato da Rádio e Difusão da BBC.
- Acha que um sindicato é uma escola?
- Muita coisa da vida das pessoas chega ao sindicato, particularmente os dramas humanos mais difíceis de resolver. Nos poucos casos individuais que tive que defender, nomeadamente os despedimentos, eu tinha que como voluntário, defender estes casos e fazer o meu trabalho normal. Em todo o caso, a BBC facilitou-me a vida.
- Misturar a agenda de trabalho com a agenda do sindicato nunca deu origem a pressões?
- Tive pressões no sentido em que como profissional, tinha que desempenhar as minhas tarefas para lá do que me era exigido como profissional. A minha vida familiar, foi a principal vitima com destaque para a minha mulher. Passei muitas noites a estudar os dossiers para poder defender as causas a que me entreguei.
- Se fosse inglês, a sua vida como profissional e sindicalista teria sido diferente?
- Não. Em Inglaterra, contou que eu fui eleito e por isso tinha a confiança da classe. Fui o primeiro sindicalista não britânico a ser Presidente do Sindicato. Não houve qualquer problema nesse domínio.
- Ser dirigente sindical já é uma tarefa imensa mas ser dirigente de um sindicato de jornalistas, não torna a tarefa mais exigente?
- Éramos 24 mil trabalhadores e esse volume de pessoas é que tornava a tarefa exigente.
- Isso fez de si um mito?
- Não me considerei como tal e os meus colegas também não se bem que sempre fui solicitado.
Nesta entrevista, estávamos a chegar ao ponto do não retorno numa conversa que haveria de destapar confissões de um jornalista da BBC.
- Para muitas pessoas, o seu percurso profissional só irá aparecer nos livros de história. Veio para Londres para trabalhar a ll Guerra Mundial, numa cidade que foi bombardeada. Como é que recorda esses tempos hoje?
- Cheguei no início dos anos 60 e Inglaterra vivia bastantes dificuldades. Devido ao desempenho da Inglaterra na Guerra e o que sofreu, provocou em mim uma paixão por este país e pela sua história. Tive o privilégio de nessa altura, ser funcionário da BBC e pude beneficiar de um estatuto que a maioria dos portugueses que imigraram nessa altura não tiveram. Tive colegas de 120 diferentes línguas e aprendi com cada um deles.
No pós guerra, conheci em trabalho pessoas que na guerra exerceram funções na ll Guerra, muitos deles nos Serviços Secretos. Alguns, foram peças importantes na vitória da Inglaterra mas nunca o assumiram publicamente e conviver com estas pessoas foi sem duvida um grande privilégio. Tive um chefe da secção Russa que era um Conde que nunca usou o título que foi chefe dos Serviços Secretos, conheci chefes de serviços da BBC que estiveram ao serviço dos Serviços Secretos em França. O próprio chefe mundial, Mr Mansel, foi um chefe extraordinário que eu tive que participou na ll Grande Guerra mas o que mais destaco nessas pessoas e na raça humana em geral com particular destaque para os ingleses; a sua humildade. Nunca puxaram desses galões enquanto estiveram ao serviço da BBC e aquilo que descobri deles foi através de outras pessoas.
Um dos grandes amigos que fiz nesta empresa, foi em tempos "braço-direito" de Winston Churchill. Quando ele morreu, o Daily Telegraph fez um obituário dizendo que ele conhecia mais sobre a Força Aérea Alemã do que o próprio Goring (Marechal Alemão). Convivi com ele muito tempo e nunca me disse nada sobre o assunto. Contava anedotas às vezes picantes mas nunca se basofeou por ter sido tão próximo de Churchill. Não devo à BBC a vida profissional que tenho mas devo estas experiências, estes conhecimentos e esta experiência.
- Privou de perto com espiões, com ministros, com terroristas. Algum dia privou com a Rainha?
- Sim. Estive com a Rainha várias vezes. Recordo-me de um almoço privado quando os jornais ainda não sabiam do possível casamento do Príncipe Charles com Diana e já Diana estava nesse almoço. Nem como jornalista publiquei essa informação.
- Gilberto Ferraz, foi o jornalista de serviço para Portugal sobre a morte da princesa Diana. Como é que viveu esse episódio?
- Também convivi com a princesa Diana. Fui convidado por três vezes pela Princesa Diana, inclusive para encontros conotados com a cultura portuguesa. Cheguei mesmo a escrever-lhe a pedir uma entrevista quando do seu interesse na desminagem do território em Angola. Mesmo pensando que não ma iria dar, decidi enviar-lhe essa carta e recebi a resposta a informar que os seus projetos seguintes seriam na Bósnia e no Vietname. Esta correspondência, levou-me a falar com o Presidente da Cruz Vermelha Britânica (Red Cross), e fui priveligiado pela sua recomendação. Percebi então que havia preocupações muito sérias e um jogo de interesses políticos muito grande, de quem estava interessado no fabrico das minas e contra a Princesa Diana que estava a afetar indiretamente os interesses comerciais do próprio Reino Unido.
Quando foi o acontecimento da morte de Diana, vejo o flash do acidente em Paris e contactei imediatamente a TSF às duas da manhã. Fiquei em direto toda a noite na antena a fornecer toda a informação a que tive acesso.
- Acredita que a morte da Princesa Diana tenha sido um acidente?
- Não, não creio. Pela investigação que eu fiz mais tarde, existem provas mais do que concludentes de que não tenha sido acidente.
- Foi homicídio?
- Não posso provar.
- Como jornalista da BBC teve acesso a muita informação que mesmo jornalistas e polícias não tiveram. Acredita que a Princesa Diana tenha sido vítima?
- Não tive informação priveligiada nesse caso mas com aquilo que é conhecimento público e com aquilo que foi investigado posteriormente, acredito que tenha sido vítima.
Outra das frentes em que trabalhou ao longo da sua carreira, Gilberto Ferraz foi a ponte jornalística entre Lisboa e Londres no caso do desaparecimento de Maddie MacCan. Gonçalo Amaral, inspetor da Polícia Judiciária de Portugal que dirigiu as investigações, foi compulsivamente afastado do caso e mesmo da corporação a que pertencia.
- Como é que vê esta decisão em relação ao inspetor da polícia portuguesa?
- Investiguei esse caso quer para a TSF como para a RTP mas principalmente com muitos artigos escritos para o Jornal de Notícias e aquilo que penso é que é altamente lamentável e tenho grande simpatia por esse inspetor. O que mais lamento, é que uma pessoa que investigou todo este processo tenha sido afastado dessa forma. Recordo um episódio que me envolveu na primeira conferência de imprensa dada em Portugal que foi dada na rua. Estavam baterias de jornalistas presentes, nomeadamente ingleses que bombardearam com perguntas um conjunto de membros da investigação que não tinham qualquer formação para aquela função. Este episódio envolveu também o David Damião que esteve colocado aqui na nossa embaixada e recordo-me nessa altura, de ter contactado o Gabinete do Primeiro-Ministro a alertar para a forma como a conferência de imprensa foi dada. A imagem de Portugal saiu muito manchada e apesar de estar em Londres há 56 anos, nunca troquei o meu passaporte apesar das oportunidades que tive. Tenho muito orgulho em ser português. Mas voltando ao caso, creio que contribui para que as  conferências de imprensa seguintes no caso MacCan, tenham sido alteradas para um modelo mais aceitável.
- Este caso é na verdade uma incógnita muito grande. Como pais, tenho por eles uma grande simpatia pelo que sofreram e estarão a sofrer mas por outro lado, considero que eles abandonaram os filhos.
- Se fosse em Inglaterra que estes pais tivessem abandonado os filhos para irem jantar, na sua opinião, o que é que acontecia?
- Seriam imediatamente dados como culpados por um Tribunal. 
Gilberto Ferraz, é dos estrangeiros que melhor conhece a cultura inglesa mas também as pessoas mais relevantes dada a sua participação na divulgação e serviços prestados à diplomacia. Importaria conhecer melhor a opinião do jornalista sobre este caso em que participou ativamente.
- Quem é que é preciso ser para que o adido de imprensa do Primeiro Ministro de Inglaterra se demita, para estar ao serviço de um desconhecido cidadão? Quem é a família MacCan?
- Como sabemos, o dr. MacCan é natural de Glasgow na Escócia e tem uma irmã que está relacionada com o Partido Trabalhista. Penso que seja uma pessoa influente dentro da política da Escócia. Recordo-me que nessa altura fiz uma intervenção a pedido da BBC, dois ou três dias após o acontecimento. Esta irmã de Jerry MacCan, não só tem influências no Partido Trabalhista, como imediatamente disponibilizou os seus contactos na imprensa, nomeadamente na MGTV, a televisão matinal da época e que depois foi extinta. Esta foi a informação que recebi algum tempo mais tarde. Estamos a falar de um período em que o Primeiro Ministro era Gordon Brown que também é escocês. Nessa altura, foi disponibilizado o acesso de Gordon Brown que era também colega da BBC. Acontece que imediatamente o caso assumiu contornos políticos devido à importância que a irmã de Jerry MacCan tinha no Partido Trabalhista na Escócia, de onde é natural também o Primeiro Ministro Gordon Brown na época dos acontecimentos. Terá sido a irmã de Jerry MacCan que mobilizou a imprensa para o caso. Recordo que que a SKY, algumas rádios incluindo da Austrália e a própria BBC, me pediram para comentar o caso. A irmã de Jerry foi de tal forma eficiente que levou o Primeiro Ministro a disponibilizar o seu assessor.
- Em todo o caso, o casal MacCan conseguiu ainda outro episódio muito mais mediatizado. O que é preciso para convencer o próprio Papa a olhar para este caso quando este género de casos são tantos em todo o Mundo?
- A dimensão global que o caso assumiu é a causa para esses episódios. Penso que tudo tenha a sua razão na relação com o Partido Trabalhista. Foi o início e depois o caso ganhou contornos que o próprio casal não conseguiu controlar. Note-se que mais tarde, o casal MacCan foi chamado a depor na Comissão Everton, eles próprios se queixaram do abuso da informação de que eles próprios dependiam.
- Mas a investigação assenta nos resultados que a polícia portuguesa conclui através da informação da polícia inglesa a trabalhar no terreno em Portugal, nomedamente através dos cães pisteiros. Foi a polícia inglesa a fundamentar os argumentos da polícia portuguesa?
- Precisamente. Recordo-me da primeira entrevista que dei à MGTV em que disse precisamente isso. Ainda bem que os cães pisteiros eram ingleses porque se fossem portugueses teriam sido desacreditados. Aliás, foi neste conturbado momento que se levanta a maior calúnia contra o nosso Embaixador da altura, Santana Carlos, com quem eu acabo a colaborar tendo como resultado uma entrevista de Santana Carlos para a Times em que afirma que não é hábito as famílias portuguesas abandonarem os filhos. Isto levou  um "pseudo jornalista" do Daily Mirror a escrever um artigo blasfémio sobre o nosso Embaixador. Intervi porque em toda a minha história no Reino Unido, nunca tinha assistido a um ataque contra qualquer diplomata acreditado em Londres, principalmente entre os dois países titulares da mais antiga aliança do Mundo. Portugal, é o mais velho aliado do Reino Unido e isso não foi observado no trabalho desse jornalista que eu classifico como um profissional de baixo nível.
- Nunca houve uma explicação ou um pedido de desculpas?
- Acredito que de forma privada possa ter havido algum tipo de comunicação mas publicamente nunca nada foi dito.
- Acha que Portugal ficou de "gatas"?
- Ficou sim. Pior que isso. Não só Portugal mas as instituições portuguesas como a Polícia Judiciária, foram vituperadas e isso não se admite. Eu sofro por Portugal e fiquei tão revoltado que para lá da forma modesta como procurei ajudar o nosso Embaixador, consegui reunir apoios que levantaram o maior protesto de sempre no Reino Unido que acabou com um pedido de desculpas por parte do jornal. Perante o silêncio de Portugal, escrevi pessoalmente ao Presidente da Assembleia da República, Dr. Jaime Gama com quem eu já tinha privado por várias vezes nas suas visitas a Londres enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros a explicar-lhe a situação. Comuniquei que deveria haver um protesto público porque a imagem de Portugal no Reino Unido estava abusivamente vituperada. Os próprios serviços jurídicos portugueses estavam em causa na opinião pública que se estava a construir em Inglaterra e era urgente fazer alguma coisa. Era uma situação que não podia continuar.
- Gonçalo Amaral foi mal demitido?
- Foi. Infelizmente foi.
Estava na altura de mudar de assunto e conhecer o pensamento de Gilberto Ferraz em questões internacionais. Antes, entender a sua alma de jornalista enquanto homem e profissional a assistir ao que se passa com os olhos da BBC.
- Como se sente quando vê um colega a ser degolado pelo Estado Islâmico? Como é que dorme? Acorda a sonhar com quê?
- Ao longo da minha carreira, fui priveligiado por ter trabalhado várias matérias internacionais embora a minha vida nunca tenha estado em risco. Sinto que muitas vezes fui indevidamente protegido. Em relação ao que vejo agora, a vida de jornalista ganhou um risco de exercício para lá da missão de informar. Nunca como este ano houve tantas mortes de jornalistas e muitos deles ainda estão presos e cuja vida está em risco. Nunca foi tão arriscado ser jornalista. 
- Acha inevitável que o islamismo invada a Europa?
- Não considero que seja inevitável mas considero o contexto tanto da Síria como do Iraque, em que as origens sunitas são uma vantagem que lhes oferece o apoio financeiro da Arábia Saudita e do Qatar, e pelas armas de que se apoderaram do exército iraquiano que fazem deles uma questão séria a considerar dado o poder que conseguiram. Ideologicamente, procuram regressar aos territórios que já foram o seu domínio incluindo a Ibéria que inclui Portugal. Lembremo-nos que Espanha foi um dos grandes califados e ambição, como eles próprios declararam, é reconquistar toda esta região, incluindo Portugal.
- Acha que a história se vai repetir e isso seja possível?
- Não podemos dizer que a história não se repetirá. Quem somos nós para saber? Haverá nuances que  temos que considerar como, o poderio financeiro de países extraordináriamente ricos como a Arábia Saudita e o Qatar, que podem fazer com que haja uma progressão financeira e por essa via outros géneros de progressão. Por isso, depende do Ocidente o resultado dessa progressão. Por isso, aplaudo a inicitiva do Presidente Obama embora eu não saiba como é que se vai resolver esse problema atacando o terreno na própria Síria num terreno que envolve ainda a Rússia que é um grande aliado e de certa forma Teerão. Por isso, temos que ter muito cuidado com o ataque da ISA. Se o Ocidente não se alertar para esse problema, como de resto a Inglaterra devido ao ritmo de procriação islâmica dentro das suas fronteiras, que no futuro dará um aumento da população islâmica e que me leva a pensar que daqui a 40 anos haverá uma Inglaterra islamizada.
- Acha que essa Grã-Bretanha islamizada possa estar de alguma forma relacionada com a morte da Princesa Diana?
- Não acho que haja uma relação direta.
- O facto de a Princesa ter na altura da sua morte um relacionamento com Al Faed de origem Árabe, terá sido um aspeto considerado para a islamização da Inglaterra?
- Não. Não direi isso.
- Deixe-me fazer-lhe a pergunta de outra forma. A possibilidade  de o Príncipe William, sucessor à Coroa Britânica vir no futuro a ter um meio irmão árabe, terá sido ponderado?
- Nesse domínio não foi estabelecida qualquer relação. O que refiro, é a possibilidade de daqui a 40 ou 45 anos a Inglaterra estar islamizada, se deve ao aumento da Comunidade Islâmica que é também a que mais procria e que poderão atingir esse ponto.
- Acha que a invasão se vai fazer pela via demográfica? É uma estratégia dos países islâmicos.
- Absolutamente. Eu já escrevi vários artigos sobre a invasão pacifica do islamismo neste domínio particular e creio firmemente que essa seja uma possibilidade.
- Mas a nós não nos é permitido ir fazer filhos para os países deles.
- Absolutamente. Esse é o problema. As pessoas que vieram para Inglaterra por razões económicas, em particular do Bangladesh e mais tarde dos países africanos, não tinham nos seus países a liberdade de se manifestarem sob pena de serem detidos. Vieram para Inglaterra por razões de vantagens financeiras e acabaram por aprender que na Democracia do Reino Unido existe a tolerância. Tenho dito muitas vezes que os "Versos satânicos de Salmon Rushi que na altura em que foram publicados não tiveram eco em países fundamentalistas como o Irão e a população que se começou a manifestar vive no Reino Unido. Foi dentro das fronteiras de Inglaterra, em Bathford que começaram a queimar o livro e assim alertaram a comunidade islâmica fora de Inglaterra no sentido de se manifestarem e foi precisamente  no Teerão, como eu escrevi no fim dos anos 70 na BBC, que mais tarde, através do "Mula" que tinha vivido em Paris que pressiconado pela Comunidade Islâmica em Inglaterra, deliberou contra Salman Rushdie. Temos aqui um episódio bastente sintomático daquilo que pode acontecer no futuro.
- Podemos pensar que um dia a Monarquia Inglesa terá que ter um tapete para rezar?
- Não sei. Honestamente não sei, mas quando o Príncipe Carlos, que é um defensor da religião Anglicana, declara publicamente que se for Rei, aceita todas as religiões, deixa tudo em aberto.
- Com a sua experiência religiosa, acha que o Príncipe Carlos pode vir a ser o "vendilhão do templo"?
- Não. Não gostaria de o mencionar que seja o "vendilhão" mas como pensador. Nunca se dá esse mérito ao Príncipe Carlos mas eu recordo-me quando ele me convidou a visitar os seus apartamentos no Condado de Gloucester, eu vi que nos seus jardins tem um espaço dedicado à meditação. Do pouco que sei do Príncipe Carlos, sei que é um grande humanista e talvez por isso não se quer limitar como a mãe a defender apenas a religião Britânica mas a abraçar as religiões. Quando há pouco mencionou em relação à morte da Princesa Diana, chegou a afirmar-se que o Prícipe Filipe, marido da Rainha Isabel ll, poderia estar culpado pela morte de Diana, por não pretender ter laços familiares estranhos ao Reino Unido. Num dos livros que tenho para publicar, abordo esta questão do receio do casamento com um médico pasquitanês cujo nome não revelo,  com quem terá havido uma paixão.
Estava na altura de mudar as "agulhas" desta entrevista e voltar a Gilberto Ferraz, o jornalista português da BBC.
- Fernando Pessa, Joaquim Letria, José Rodrigues dos Santos, Gilberto Ferraz, tudo jornalistas portugueses que ficaram na história da BBC. Como se sente nesta galeria de nomes grandes do jornalismo?
- Sinto-me muito honrado. António Cartaxo é um dos nomes que falta nessa lista e que também passou pela BBC. Lembro-me de uma conversa com o Letria numa altura em que ele estava indeciso sobre voltar a Portugal ou não, onde viria a fundar O Jornal e o semanário Tal & Qual. Ele não tinha um contrato permanente com a BBC e eu disse-lhe na altura que "uma pessoa com as capacidades que tens e a experiência adquirida na BBC, seria positivo para ele voltar a Portugal, para junto da família e da cultura portuguesa onde fez a diferença. Não sei se o influenciei mas tive oportunidade de lhe oferecer a minha opinião. Quanto ao José Rodrigues dos Santos, nunca tive um contacto muito próximo com ele mas ele também não esteve muito tempo na BBC, embora tenha beneficiado do nome da estação e eu tenho-o como um grande profissional. Recordo o João Paulo Dinis por quem tenho grande estima e com quem conservo o contacto. Destes profissionais, José Rodrigues dos Santos será talvez o que mais vantagens conseguiu por ter passado pela BBC.
Nova volta, nova corrida e nova mudança no teor desta entrevista. A história profissional de Gilberto Ferraz é de tal forma diversificada que não cabe tudo numa entrevista mesmo que seja uma das mais extensas entrevistas escritas no Palop News. Voltamos à carga.
- Gilberto Ferraz esteve profissionalmente envolvido em histórias que mudaram o Mundo. As Falkland/Malvinas na guerra com a Argentina, conheceu submarinos, esteve em manobras militares na Alemanha, foi recrutado várias vezes como tradutor nas negociações políticas internacionais entre a Inglaterra e países de Língua Portuguesa, passaram-lhe muitos segredos pela "mão"?
- Alguns. 
- Qual foi o maior desses segredos?
- Não direi segredo. Na altura, colegas da secção portuguesa da BBC perguntavam-me se eu não tinha dificuldades como jornalista, de ter conhecimento de assuntos altamente confidenciais. Felizmente, sempre soube dividir as minhas funções e nunca tive esse género de problemas. Estamos a falar em 1991 em que fui convidado através de um telefonema que recebi aqui na BBC de um acessor do então Ministro da Defesa que é hoje o Lord Kim.
- Nessa altura teve acesso a informação classifcada?
- Tive.
- Qual era o dossier na altura?
- Foi a primeira guerra do Golfo. Fui convidado para me deslocar ao gabinete do Ministro. Eu sabia mais ou menos o que ele me iria perguntar e a verdade é que ele me perguntou o que é que eu achava da 1ª Guerra do Golfo. Na altura, eu pensava o que lhe disse e que ele aceitou. "Creio que não vai haver guerra do Golfo" - foi o que lhe transmiti na altura e a resposta acordou uma nova pergunta do Ministro que me perguntou porque razão eu pensava dessa forma. Expliquei-lhe que a minha opinião estava fundamentada nos factos. "Sadam Hussein ameaça pegar fogo aos poços de petróleo mas havia a cláusula que o mesmo Sadam Hussein tinha sido treinado e equipado por ingleses e franceses e penso que isso seja um fator importante para que os americanos se decidam contra a guerra do Golfo. Mas principalmente, os problemas ambientais se ele concretizar a ameaça". nessa altura, o Ministro olhou para mim e disse-me que aceitava o que eu lhe dizia e depois apelou ao facto de o presidente Bush (pai), estar já envolvido na Guerra do Golfo. Naquela altura, como qualquer outro jornalista, poderia ter feito uso da informação para efeitos de publicação mas como era informação confidencial, nada disse.
- Sente que se traíu a si mesmo na ambiguidade da função e a carreira de jornalista?
- Não. Não me considero uma pessoa importante mas considero-me muito cioso dos princípios quer como jornalista, quer como cidadão ao serviço do Governo Britânico. Na mesma altura, recebi uma outra chamada telefónica do acessor do Ministro das Relações internacionais para em meia hora estar no gabinete dele e eu disponibilei-me para o visitar.
- A BBC sempre teve conhecimento destas questões?
- Sempre. Sempre dei conhecimento às chefias destas situações.
- A BBC nunca lhe exigiu uma moeda de troca?
- Nunca. Fui sempre respeitado pela BBC neste domínio e é isto que faz da BBC uma grande casa. Não sei como é a BBC hoje mas acredito que siga os mesmos pregaminhos. Não recebi pormenores de quem era a pessoa que me telefonou mas na altura era uma pessoa que foi detetada no aeroporto de Heathrow e que veio cá por razões de saúde na altura ainda não havia relações diplomáticas com Angola e havia a considerar o forte envolvimento da Rodésia. Neste caso, o secretário de Estado que mais tarde veio a ser Governador de Gibraltar, ía visitar a Rodésia e queria visitar Angola. Havia nessa altura vontade de saber mais sobre Angola e os exércitos clandestinos na Rodésia na defesa de um entendimento com a Gã- Bretanha. Esse, foi o início das relações diplomáticas entre Angola e a Grã- Bretanha e que acompanhei até ao ponto da formalização desse relacionamento diplomático. Acompanhei esse processo durante 12 dias.
- Teve conhecimento de muitos segredos nesses encontros. O que lhes vai fazer?
- Vou levá-los comigo.
- Há outros segredos que eu gostava de saber se pode partilhar. Estou a falar-lhe de Timor Lorosae.
- Acompanhei de perto a partir de Londres e tenho também um livro que espero publicar sobre esse dossier que se chama "Timor Leste, uma dívida por saldar". Estou abolutamente convencido que a dívida de Timor Leste à Brã- Bretanha tem contornos ainda por revelar, a começar pela venda de armamento por parte de Inglaterra. O povo britânico, aqueles que lutaram, sejam altas figuras académicas como o Professor John Taylor que creio, ainda ensina na Universidade a Sul de Londres, como outras pessoas que não sendo influentes fizeram campanha, Timor Leste, muito deve a esses cidadãos ingleses. Creio mesmo que se não fossem esses ingleses a fazer campanha pela independência, Timor-Leste poderia ter tido outra história.
- É uma divida com a Inglaterra ou com a BBC que fez a cobertura e difusão desse trabalho?
- Em relação à BBC, tenho também aí um contributo pessoal embora modesto. Quando o então Bispo Martinho que mais tarde foi demitido pelo Vaticano e que foi núncio em Timor Leste e defendeu os timorenses contra o Presidente Shuarto da Indonésia, veio aqui para me dar uma entrevista que foi publicada por mim na BBC, ele fez uma confissão que não se sabia. Ele revelou que a chamada resistência timorense tinha na altura com o Mundo exterior, as emissões da BBC que passavam em Timor a meio da noite. Na altura, era a secção brasileira da BBC que transmitia algumas informações sobre Timor mas não muito. Nessa altura, falei com o então responsável pela secção portuguesa que mais tarde foi extinta, contei-lhe a informação que tinha recebido. Foi nessa conversa que sugeri que se pudesse transmitir mais informação sobre Timor porque a única informação que a resistência recebia era através da secção portuguesa da BBC. Imediatamente ele alterou a grelha de informação e a BBC passou a transmitir mais informação sobre Timor.
Estávamos no rastro final desta entrevista e as perguntas estavam a acabar e a multiplicar-se.
- Acha que uma Comenda reconhece tudo aquilo que fez pelo jornalismo?
- Não me faça essa pergunta por favor. Quando o então  Secretário de Estado me veio impôr a Comenda na nossa Embaixada em Londres, segundo os dados oficiais, foi atribuída aos serviços prestados ao jornalismo. Não me pergunte porque nunca fiz nada de especial.
- Você participou em histórias que mudaram o mapa do Mundo.
- É muito amável da sua parte dizer isso.
- Muitos países são agora novos países e GilbertoFferraz esteve presente em todas essas histórias.
- Estive presente com muitos dignatários de Cabo verde, de S. Tomé e Príncipe e muito particularmente o Brasil. Vinham aqui muitas vezes à City pedir ajuda financeira e eu acompanhei aqui altos dignatários brasileiros que vieram a Londres e um deles, foi mesmo Governador de um Estado Brasileiro e que veio mais tarde, a ser Vice- presidente do Brasil. Na altura, vieram pedir dinheiro para ajudar aquele que neste momento é um dos grandes países do mundo.
- O português Gilberto Ferraz, para lá do jornalista, esteve sempre envolvido com a Comunidade Portuguesa em Londres. Foi Presidente da secção do PSD (Partido Social Democrata) no Reino Unido, envolveu-se em muitas histórias da Comunidade Portuguesa. Como é que sente esse reconhecimento? Acha que lhe reconhecem a dimensão humana e profissional?
- Aprecio quando as pessoas que são grandes permanecem modestas.
- As pessoas grandes que conheceu até hoje, foram suficientemente modestas para serem gigantes?
- Muitas delas, claro que sim. Para mim, o maior privilégio que tive no meu relacionamento humano, foi precisamente ter sido parte de uma vivência em que muitos me consideraram e consideram colegas e outros me consideram amigos. Essa é a minha maior riqueza.
Esta foi a entrevista com Gilberto Ferraz, português, jornalista da BBC por mais de 30 anos e que foi pedra fundamental na criação do movimento associativo português no Reino Unido e que passeou em Londres na companhia de Francisco Sá Carneiro e que insiste em recusar pedestais.
PN
 

Comentários  

 
0 #2 Palop News 22-09-2016 11:43
NR: Devido ao espaço disponível para os comentários ser reduzido e à extensão da resposta que recebemos de Gilberto Ferraz, decidimos publicar a resposta neste link: http://www.palopnews.com/index.php/component/content/article/197-rostos-que-sao-noticia/2246-resposta-de-gilberto-ferraz-
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0 #1 Joao Duarte Ferreira 20-09-2016 08:21
Entrevista mas peca pela inexatidão... não tanto do entrevistador mas do entrevistado. Trabalhei no Serviço de Língua Portuguesa para África da BBC World Service entre janeiro de 1995 e Fevereiro de 2008 e posso garantir que o Sr. Gilberto ferraz nunca trabalhou para este serviço da BBC. Uma ou outra vi-o por lá mas apenas de visita. O máximo que o Sr. Gilberto Ferraz lá passou foram três meses em regime de "attachment" ou seja formação. Terminado este período regressou ao departamento de pesquisa de audiências para o serviço brasileiro. Voz da BBC durante 30 anos? Uma enorme mentira!!
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