Palop News, Noticias em Portugues no Reino Unido

  • Aumentar fonte
  • Tamanho normal
  • Diminuir fonte
Home Entrevistas Artista português em Londres

Artista português em Londres

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

É um dos rostos mais conhecidos do panorama musical português e encontra-se em Londres a desenvolver um projeto musical que o levou a vir residir para a capital Britânica. João Melo, rosto da banda Fúria do Açúcar, tornou-se famoso pela qualidade do seu trabalho e publicamente requisitado pela sua permanente boa disposição.
Nesta entrevista, a Comunidade Portuguesa em Londres fica a saber mais sobre o autor de "Eu gosto é do Verão", talvez o maior êxito da carreira deste intérprete. João melo, afirma que é "bom quando as pessoas não se deslumbram consigo próprias e isso acontece com muitos artistas que por vezes julgam que são coisas que na verdade não são. Felizmente há as exceções" - revela o músico que é frequentemente interpelado na rua e a que sempre responde simpaticamente, conforme tivemos oportunidade de confirmar.
Músico, comediante, entertainer, João Melo passou já por todas as televisões em Portugal e em alguns períodos, de forma assídua. "Sou isso tudo" - diz João Melo. "Há alturas em que sou entertainer, outras em que sou mesmo músico" - revela para arriscar a certeza de que é como músico, como compositor, onde melhor se sente.
- João Melo está melhor em casa de viola na mão a compor ou frente a uma plateia?
- Depende. Já houve momentos em que senti necessidade de estar sózinho a compor, outras em cima do palco e outras ainda em que senti falta das duas coisas. Depende - revela.
Neste momento, em Londres, João Melo está mais recatado e entregue à area da produção mas com a chegada do espetáculos de Verão em Portugal, tudo muda de figura com a entrada em cena dos Fúria do Açúcar.
João Melo, afirma sentir-se bem quando as pessoas se divertem com o seu trabalho embora assuma que no processo criativo, o ambiente seja outro. "Faço as coisas porque me apetece. Só depois de já estar feito é que penso na forma como as pessoas se poderão divertir com o meu trabalho e nesse sentido posso fazer retoques. Vou atrás dos meus impulsos criativos e se eu não tiver esse impulso, não adianta" - diz.
Com a vida como se apresenta tão cheia de desgraça, João Melo continua a ser um espaço imenso de boa disposição esteja onde estiver, seja pessoalmente, seja na escrita corrente.
- Onde se vai buscar essa força inspirativa?
- Se calhar às coisas menos boas. Um falecido amigo meu, era o autêntico síndrome do palhaço. Era uma pessoa muito triste por dentro mas que gostava de ver as pessoas a rir em sua volta. Eu sou um pouco assim.
- Os teus amigos mais próximos, não ironizam com a tua "loucura"?
- A todo o tempo. Até na rua, quando as pessoas passam por mim de longe, nos carros e me gritam «Gandamalucoo».
Inicialmente, ficava escandalizado. Eu? Grande maluco? Que é que foi que eu fiz? Depois foi tanta gente a fazê-lo que acabei por assimilar mas ainda hoje continuo sem perceber muito bem - diz para adiantar - Creio que acabei por descobrir algumas dessas razões depois de ver o meu desempenho no Big Brother e aí ganhei noções sobre mim próprio que não tinha. Pensei que era uma pessoa muito chata, sem piada nenhuma e ver-me como um hamster ali fechado levou-me a perceber que até eu achava piada a mim mesmo naquelas circunstâncias. 
- Ainda por cima, vias uma pessoa conhecida nas imagens!
- Claro. Eu conhecia aquele gajo. Pode ser presunçoso dizê-lo mas foi aí que comecei a perceber porque razão, ao fim de tantos anos de carreira, as pessoas me diziam que eu tinha piada. Eu nunca o tinha percebido - afirma.
Enquanto artista, importaria perceber a visão do músico e compositor sobre o panorama musical português.
- Queres mesmo a verdade?
- Tens queda para a política?
- Não tenho ambições políticas.
- Então podes mentir à vontade.
- Se posso mentir à vontade, vamos ao "com a verdade me enganas". Acho que prefiro dizer a verdade. Não existe.
- Não há uma realidade musical em Portugal neste momento?
- Neste momento não. Quem decide essa realidade hoje são os mercados. Nos mercados, há pessoas que compram e outras que vendem e neste momento, em Portugal, não há ninguém a comprar música ou a que há não tem expressão. Aos artistas, não adianta criar a oferta para depois ninguém a comprar e assim não vale a pena.
- Os artistas têm que encontrar outra forma de vida?
- Ou outra forma de morte. Vi no Facebook a morte de um músico que conheço há muitos anos e não percebi bem as razões pelas quais morreu mas parece-me que foi por aí. Uma pessoa, mesmo com talento, se não encontra outra forma de expressão está muito mal de vida. É assim que se está na música em Portugal.
- Está diferente dos outros países da Europa?
- Está. Nos restantes países ainda vai havendo alguma coisa que mexe. Há música ao vivo, há quem pague aos artistas, há gingles de publicidade e pelas cunhas ou pelo talento, consegue-se encontrar trabalho. Em Portugal, não há práticamente nada para fazer haja talento ou cunha.
- Musicalmente é um Portugal falido?
- É. Não há nada para fazer.
- O recente reaparecimento de bandas e temas dos anos 70 a 90, significa que a mensagem continua atual ou que essa música tem tamanha qualidade que continua viva?
- Um misto das duas coisas. Pode ser por razões comerciais também. Há sempre ondas revivalistas e neste momento está na onda a música dos anos 80 e isso explica-se com as pessoas entre os 30 e os 40 anos que atingiram uma plenitude material que lhes permite comprar música ou ouvir aquilo que querem. São pessoas que neste momento estão a emergir nas posições chave do poder, têm negócios, têm estabilidade financeira e nasceram ou cresceram com essa música. Por outro lado, a minha filha que nasceu em 2000, é fanática pelos Beattles e música do fim dos anos 60 e principio dos anos 70. Nunca exerci influência musical na minha filha embora tenha promovido o convívio com a boa música já que a má ouve-se em todo o lado. Por isso, insisti desde que nasceu, na boa música fosse ela erudita ou outra música de qualidade. Ela podia entender aquilo como um frete mas eu estava a injetar a qualidade musical lá dentro e um dia, explodiu com um gosto pelos Beattles através de um espetáculo de homenagem a esta banda e ela descobriu o seu gosto pela banda inglesa. 
Foi aqui que decidimos provocar João Melo com uma "la palisse".
- Onde estavas no 25 de Abril?
- Lembro-me perfeitamente. Estava em casa e ía para o liceu. Ao contrário de mim, os meus pais tinham consciência política embora tentassem abafar essas coisas. O meu pai que também foi radialista, tinha uma coleção imensa de discos sobretudo de José Afonso e outros músicos conotados e pedia-me sempre para não ouvir esses discos durante o dia porque o nosso vizinho era polícia. Eu não percebia mas aceitava. 
Nesse dia, o meu pai veio para casa todo entusiasmado a ouvir rádio a dizer que estava a correr uma revolução. Na altura fiquei à toa. "Uma revolução? Mas de quê?" E depois ele saiu para a rua como todas as pessoas. Eu estava com 12 anos e lembro-me que a 26 de Abril eu tinha um teste de Matemática e estava a torcer para que o Marcelo Caetano aguentasse mais um dia para não haver escola no dia seguinte. Não aguentou e eu tive que ir fazer o teste.
- A questão política, passou-te ao lado?
- Nesse dia sim. Passados 6 dias, foi o 1º de Maio e era a loucura total. Em seis dias, parece que ganhei consciência política. Só aí percebi que não podia ouvir alguns discos porque a polícia reprimia. Tudo era muito estranho.
Eu tinha um tio, dono de uma farmácia no Alentejo que era marcelista e Presidente da Junta de Freguesia. A farmácia era tipo centro comercial; vendia várias coisas inclusivé jornais e eu lia os jornais. Nunca entendi que Portugal fosse a preto e branco. Para mim, era cinzento porque depois lia as reportagens sobre os outros países e eram a cores. Nunca percebi porque razão éramos cinzentos.
- Achas que continuamos cinzentos em relação a outros países?
- Provavelmente, como o 25 de Abril me apanhou na adolescência, também comecei a ver o Mundo a cores. Acho que passamos a ser a cores mas nos anos 70. Temos as cores um pouco desbotadas - conclui. 
Não sendo religioso, veio a curiosidade de uma entrevista que pretende mostrar um João Melo desconhecido, aquele que ainda não está na internet.
- O que pensas do Papa?
- Provavelmente é o último.
- Porquê?
- Porque existe uma professia de um frade inglês do Século X em que enumera todos os papas e eu tenho a impressão que este é o ultimo.
- É Francisco quem fecha a cortina?
- Dá-me a ideia que sim. Não sei bem porquê mas se este frade tem razão...!
- Se este for o último Papa, como pensas que fica o cenário e a plateia?
- Queres mesmo falar do Papa? Eu sou muito cético em relação às religiões, principalmente a Católica mas sei que a maior parte das pessoas não o são. Custa-me estar a falar disto porque mesmo que seja sem querer, posso estar a ofender alguém.  Se calhar é melhor eu não responder e passamos à frente.
- Quando te procuramos na internet, a palavra mais presente é Verão. Como é que alguém que gosta tanto do verão, escolhe Londres?
- Quem é que disse que eu gosto do Verão? Um artista não tem que experenciar tudo o que canta ou escreve. Pode intuir mas não tem que experiênciar.
- Afinal também gostas do Inverno?
- Claro que gosto. Imagino porém a forma como os portugueses gostam do Verão.
- Já subiste a muitos palcos. Já te atiraram cuecas?
- Um soutien já. Cuecas ainda não.
- Consideras isso um momento de sorte?
- Confesso que na altura fiquei surpreendido. Ao princípio fiquei sem saber o que era, depois confirmei o que era e depois vi muitas mãos no ar e fiquei sem saber de quem era.
- Soube-te bem?
- Soube. Para o ego.
- Por falar em soutiens, como vês a politica em Portugal?
- É mais uma das razões pelas quais estou em Londres. Eu não me sinto bem em Portugal. Em Londres podemos fazer coisas, é uma sociedade mais regulamentada. Em Portugal é um descalabro total. Em Portugal, estamos num ponto em já somos zombies a pensar que estamos vivos. Portugal, parece uma sociedade de zombies. O melhor, ou morre, ou vai embora. De resto, os próprios políticos estimularam as pessoas a sair e fica quem não pode sair ou quem não tem coragem para o fazer. Acho que o País está mal e nem nos próximos 20 anos conseguirá levantar.
- Porquê?
- Dou o exemplo da minha mãe que era funcionária pública. Sempre fizeram do salário dela o que quiseram. Descontaram impostos, descontos e tudo o que entenderam. Desse dinheiro, foi acumulando uma reforma que hoje é considerada milionária para a qual trabalhou toda a vida. Isto é para rir. Pagou todos os meses com os descontos que lhe eram obrigatóriamente feitos e agora tem que suportar a vergonha de ter uma reforma milionária. Isto diz bem da falta de vergonha que existe em Portugal. Acho que o que se perdeu mesmo, foi o respeito pelas instituições e as pessoas. Está tudo descridibilizado - lamenta.
- Presume-se que a reforma da tua mãe seja equiparada à de Ministro!?
- Pois. E depois ainda tem que se ter vergonha disso. Não foi por benesses nem vigarices. Foi pelo trabalho. É apenas um exemplo entre muitos de pessoas que trabalharam como escravos para essa reforma, ou se preferirmos, para essa vergonha.
Ao mesmo tempo, existe uma mentalização coletiva para que as pessoas sintam culpa de tudo, que se sintam responsáveis por tudo e de tanto ser martelado, até vai pegando.
- Uma mentira dita muitas vezes virou verdade?
- Exatamente. Impingem-nos que andamos a viver acima das nossas possibilidades como se os bancos não tivessem estimulado isso. Parece que estamos esquecidos de receber 4 telefonemas por dia para termos acesso a cartões de crédito, quando queríamos comprar casa os bancos davam tudo e mais alguma coisa. Eu conheço duas ou três pessoas que não fizeram isso. De resto, parece que toda a gente fez e era de tal forma a pressão para nós consumirmos para agora nos acusarem da responsabilidade desse consumo. Somos responsáveis? Sim mas não é bem assim.
- Estás furioso?
- Um bocado. Quando se fala disto fico zangado. Estou ressentido com os nossos governantes.
- Como estão os Fúria do Açúcar?
- Estão em banho-maria. O ano passado lançamos um CD e devido à situação de Portugal acabou por acontecer uma coisa caricata. Em fevereiro entramos em acordo com a editora, preparamos o trabalho em equipa porque só assim faz sentido e no lançamento do CD em Julho, eu estava sózinho porque todos os outros meus colegas tinham imigrado. Um foi para Macau, outro para os Estados Unidos e outro voltou para o Brasil. Nessa altura, pensei que se aquilo não era um sinal, não sei o que seria. Estava na minha hora e vim para Londres.
- Fazer o quê?
- Um projeto em inglês na área da Dance Music. Nunca o tinha feito, talvez um pouco por preguiça ou por ter trabalhos noutras áreas. Passei muitos anos a fazer música infantil e depois o regresso dos Fúria do Açúcar. De certa forma, podia ter continuado em Portugal e continuado com outras pessoas mas perdeu-se o sentido. Temos dois espetáculos agendados para este ano mas estou a repensar o projeto dos Fúria do Açúcar e tentar perceber se vale a pena continuar ou se invisto tudo no projeto que estou a desenvolver em Londres.
- Há um jornalista inglês que afirma que tu dizes a brincar, verdades que toda a gente quer ouvir. Mensagens de esperança, frutos de crítica. Que tipo de mensagens passas neste trabalho?
- Isso mesmo que acabaste de dizer. Coisas que às vezes digo de uma forma mais velada, outras de uma forma mais direta. Não vou fazer música de intervenção e neste trabalho, tentei puxar um pouco do melhor que já havia em Portugal ao nível do entretenimento com homenagens ao Herman José dos primeiros tempos ou ao Vasco Santana ou ao Raul Solnado. Se calhar, uma altura dourada de bons comediantes que se perderam com a desgraça e os ultimos anos de crise. Usei alguns "samples" deles e estabeleci uma ponte entre um discurso mais moderno, aplicado à atualidade com coisas que eles já diziam. Foi um trabalho quase de colagem de uma série de coisas para que tudo fizesse sentido.
- Dizes que não fazes música de intervenção mas neste teu ultimo trabalho tens um grito de protesto com o tema "Jorge fala com ele pá".
- Não no sentido de me aproximar de José Mário Branco ou de Zeca ou outros grandes nomes da música de intervenção. Este tema é uma brincadeira de uma realidade que de facto aconteceu.
- Estás a excluir a possibilidade de daqui a 30 anos este tema ser considerado distante daquilo que cantaram José Mário Branco ou Zeca Afonso?
- Não faço isso para o meu ego. Se isso acontecer já cá não estarei. O que eu admito é fornecer matéria prima. Fica aí. De resto, façam com isso o que quiserem.
- És um homem de causas? És padrinho de alguma coisa?
- Já fiz várias coisas quando estava em Portugal. Neste momento, tenho as minhas causas particulares.
- Algumas que destaques?
- Não. São coisas pessoais.
- Serias capaz de dar apoio, rosto, nome e colaboração a uma causa de saúde, justiça ou outra similar?
- Isso que acabas de dizer, já é apelativo o suficiente. Claro que estou recetivo e disponível para defender causas.
- Quando é que te vamos ouvir com os olhos em Londres?
- Não faço ideia. Não tenho nada agendado. Passei pelo Aniversário do Clube a Família e estou disponível para ser contactado. O que estou a fazer aqui e o projeto dos Fúria do Açúcar, não colidem com oportunidades que me possam surgir. Com as saudades que tenho, acredito que tenho também mais empenho nas oportunidades que me possam surgir em Português no Reino Unido.
Quando fiz o show para a Associação a Família, dei o litro e empenhei-me como já não o fazia há muito tempo.
- Foste tirar a barriga de misérias?
- Exatamente. 
Para contactos para espetáculos, basta procurar no Facebook os Fúria do Açúcar ou o próprio João Melo na rede Skype.
Estava terminada a entrevista. No Palop News, ficamos a saber mais sobre um dos maiores rostos da música portuguesa em Londres.
João Melo escreve no Palop News
 

Comentar


Código de segurança
Actualizar


Page Peel Banner

Tradutor

Portuguese English French German Italian Spanish
Faixa publicitária
Faixa publicitária

JoomCategories for JoomGallery