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Hó Diabo

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Ainda estou para perceber o que aconteceu. Ouvi dizer que só me vão dizer depois da autópsia. Neste momento, apenas sei que acabaram de me vestir e me enfiaram numa embalagem e estão a levar-me para onde não sei. A tampa da embalagem vai fechada.
Do lado de fora, dois homens vão a conversar sobre a tabela da classificação do futebol. Oiço-os. Pelas frinchas que separam a embalagem da tampa e consigo ver que um deles está aos meus pés e o outro acima da minha cabeça.
Entrei num carro que penso seja uma limousine. Continuo deitado mas a sentir a trepidação dos pneus na estrada. Eu sabia que um dia haveria de fazer uma viagem de limousine. Pena não ir sentado e não haver D. Perignon.
Voltaram a tirar-me do carro. Estou ao ar livre e consigo rasgar maior visão pelas frinchas da tampa para a embalagem. Consigo contar seis sombras à minha volta como se fosse uma escolta. Dois junto à cabeça, dois a meio corpo, e mais dois aos pés. Devo estar a caminho de uma condecoração. Dou por mim a pensar se não terei sido raptado por um gangue que vai pedir o meu resgate. Do lado de fora, oiço gente a chorar alto e baixinho. Não os consigo ver.
Acabaram de me pousar numa espécie de altar, pelo que percebo. Estão todos à minha volta. Acho estranho que várias pessoas estejam com óculos de sol num dia de poucas cores. À direita, vejo um grupo de pessoas que se distinguem dos outros. São a família. Ali ao lado, estava o Zé com flores na mão. “Deve ir para um funeral, coitado” – pensei.
Na verdade, muitas pessoas que eu consigo ver, estão floridas. A florista deve ter ficado feliz. Comecei a somar as imagens e percebi que estava num funeral.
- Funeral? Deitado?
Havia de haver um engano. Prometeram-me que dariam mais informação logo após estar finalizado o «Relatório da Autópsia», daí a meses e eu nunca fui a funeral deitado. Pelo canto do olho, vejo o Américo. Ainda não fez contas comigo do dinheiro que lhe emprestei. Era a minha deixa.
Desatei ao pontapé e à bofetada à tampa da embalagem como nos melhores filmes do FBI. Ninguém pareceu ouvir. Tentei rebolar o corpo para fazer rolar a embalagem onde estava metido. Não se mexia. Devia estar aparafusada porque nem sequer vibrava com a pancada que lhe dei.
Decido descansar e observar melhor. A Manuela está sem marido e ao lado do Carlos. Eu já desconfiava. O marido da Manuela que eu não vejo daqui, anda a ser enganado. Quando estiver com ele vou ver se me lembro de lhe dar umas dicas.
O ambiente parece tranquilo. Não está cá ninguém a quem eu tivesse ficado a dever dinheiro. Decido voltar à carga. Escolho boxe e dou alguns socos em código morse. Aquela gente toda não me consegue ouvir? Tenho que lhes recomendar um Otorrinolaringologista. Se me lembrar, mando um e:mail a todos eles.
Num esgueirar pelo canto do olho através da frincha, vejo o Antunes. Esperava vê-lo só amanhã. Também ele com flores e a ver se tem os sapatos brilhantes. É a primeira vez que o vejo sem o acordeão.
Agora falaram do meu nome. Quem quer que seja que está a falar está a homenagear-me. Fala de mim como se eu fosse…, fosse, fosse aquilo que sou. Ou penso que sou.
Pelo andar do discurso, daí a minutos, iam tirar-me a tampa da embalagem e fazer-me uma surpresa. A família e alguns amigos, estavam juntos para me reconhecer. Até me trazem flores. Sinto-me nas nuvens. Podiam ter levado as flores a minha casa ou combinar uma festa num restaurante mas preferiram um espaço ao ar livre. Quiseram fazer-me uma surpresa. Só não percebo as que choram e os óculos de Sol mas estou feliz por terem vindo.
Não tarda, vou fazer uma vénia e agradecer a cada um deles. Já sinto a embalagem a mexer. Espero aguentar-me de pé depois de tanto tempo deitado. Finalmente a embalagem parou e vejo flores por todas as frinchas. Continuo deitado. Sinto-me comovido pelas flores a que não me posso esquecer de retribuir logo que possa.
Com as flores, a luz que entra pelas frinchas ficou mais ténue. Agora oiço um barulho que não distingo bem mas que me parecem aplausos e devem estar a cair mais flores. Está a ficar escuro. Tenho que parar de escrev 
Manuel Gomes
 

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