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Livro sobre 27 de Maio de 1977 em Angola gera mais perguntas que respostas

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O mais recente livro sobre o alegado golpe de 27 de Maio de 1977 em Angola "levanta mais perguntas do que respostas" sobre as verdadeiras intenções, envolvidos e número de mortos, admitiu a jornalista britânica Lara Pawson. 
"O meu livro não é uma história definitiva do 27 de Maio, é a minha investigação e mais trabalho precisa de ser feito", afirmou à Lusa, a propósito de "Em Nome do Povo - O massacre que Angola silenciou", livro que lançou em Londres.
A autora estará em Lisboa em junho para apresentar o livro, que chega às livrarias portugueseas, editado pela Tinta-da-China. 
O livro, que demorou sete anos a escrever, representa uma investigação de sete anos da antiga correspondente da BBC em Angola (1998-2000), demora que atribui à própria "lentidão" e à incerteza criada pelos testemunhos que recolheu entre Londres, Lisboa e Luanda. 
"Todas as pessoas com quem eu falava pareciam ter visões muito facciosas e eu achava difícil confiar em alguém. Esse é um dos interesses do livro, porque levanta a questão do rigor da informação sobre Angola e qual é a informação em que podemos confiar", justificou, em declarações à agência Lusa. 
O 27 de Maio de 1977 é descrito como uma tentativa de golpe de Estado por "fracionistas" do próprio Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), então já no poder do país recém-independente, contra o Presidente Agostinho Neto e "bureau político" do partido. 
Segundo vários relatos, milhares terão morrido na resposta pelas forças armadas, nomeadamente os dirigentes Nito Alves, então ministro da Administração Interna, e José Van-Dúnem, mas foi difícil para Lara Pawson alcançar uma "versão definitiva" sobre os interesses e objetivos daquele movimento, que alegou tratar-se de um ‘contragolpe’. 
"Uma das discussões foi saber se foi manifestação ou golpe de Estado e o que aprendi após falar com angolanos, em particular o povo, é que muito deles acreditavam estar a participar numa manifestação pacífica. Mas, por outro lado, o facto de a 9ª Brigada se ter envolvido, de a rádio ter sido ocupada durante várias horas por homens com armas e as prisões invadidas parece difícil negar que não houve tentativa de golpe", vincou. 
Outra questão controversa que tentou esclarecer foi o número de mortos resultantes da resposta do regime, e que variam, segundo as versões, entre 20 mil a 30 mil mortos, número dado à autora pelo irmão de José Van-Dúnem, João, a 100 mil mortos reivindicados pela Fundação 27 de maio. 
"O mais próximo que consegui de uma versão oficial foi de Fernando Costa Andrade, antigo diretor do Jornal de Angola. Ele disse que o ministro de Defesa da altura tinha estimado pelo menos 2.000 mortos. Se um ministro diz isto, é porque no mínimo foram 2.000 mortos, mas podem ter sido mais", referiu Lara Pawson. 
O envolvimento de Moscovo, a existência de fraturas entre os próprios fracionistas são outras questões que continuam em aberto, bem como o papel do atual Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, que sucedeu a Agostinho Neto no poder. 
"Esta é uma das questões que eu espero que o livro provoque: as pessoas do atual regime precisam de prestar contas e descobrir quem esteve envolvido e quem não esteve. Estas pessoas precisam de ser confrontadas por um tribunal e serem interrogadas antes de morrerem", sugeriu. 
A "complexidade e contradições" que rodeiam o assunto contribuíram para a "obsessão" de Pawson em querer escrever este livro num tom romanceado, mas, passados 34 anos, descobriu que o assunto continua a ser um "tabu" e que muitos dos envolvidos têm medo de falar, pelo que a identidade teve de ser preservada no livro. 
O próprio receio do MPLA em "abrir a ferida" abriu espaço para que Nito Alves seja atualmente idolatrado por jovens angolanos opositores ao regime, disse a jornalista britânica, concluindo: "Esconder a verdade está a criar cada vez mais o peso do próprio mito". 
PN/Lusa
 

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